Adoção Espiritual convida fiéis a nove meses de oração pela vida
- 06/10/2026
Iniciativa presente em mais de 60 dioceses do país propõe oração por crianças em risco de aborto e acolhimento às gestantes em estado de vulnerabilidade
Julia Beck
Da Redação

Adoção Espiritual une oração e cuidado pela vida desde a gestação /Fotos: Canva
No contexto da Semana Nacional da Vida, celebrada pela Igreja no Brasil desde o dia 1º de outubro até esta quinta-feira, 8, uma iniciativa convida os fiéis a assumirem um compromisso de oração e cuidado por uma vida: a Adoção Espiritual. A prática consiste em uma pessoa se comprometer, durante nove meses, a rezar por uma criança concebida que esteja em risco de aborto e também por sua mãe.
A proposta é que o fiel se torne, espiritualmente, pai ou mãe daquela criança. O compromisso começa com uma oração e, a partir de então, durante nove meses, o participante reza diariamente uma dezena do terço e uma oração própria pela criança, pela mãe e pela família. Também é possível oferecer, de maneira facultativa, uma boa obra ou outro propósito por essa intenção.

Dom Tiago Stanislaw /Foto: Carlos Moioli – ArqRio
“Quando nós fazemos a oração de intercessão praticando a Adoção Espiritual, nós nos colocamos perante Deus na condição dos pais desta criança, pais espirituais”, explica o bispo auxiliar do Rio de Janeiro, Dom Tiago Stanislaw, responsável por difundir a iniciativa no Brasil.
A criança e a gestante não precisam ser conhecidas por quem assume o compromisso. Segundo a coordenadora nacional da Adoção Espiritual, Débora Meireles Martinho, a proposta é justamente confiar a Deus uma vida cuja realidade somente Ele conhece. “Você não precisa conhecer a gestante. […] O seu compromisso é com Deus. E Deus, naquele momento, sabe para quem a sua oração está indo”, afirma.
Da Polônia para o Brasil
Segundo Dom Tiago, a origem da Adoção Espiritual está relacionada a uma iniciativa do Exército Azul de Nossa Senhora, organização dedicada à divulgação da mensagem de Fátima. Na década de 1980, estudantes poloneses teriam conhecido, na Inglaterra, materiais que apresentavam a proposta de intercessão. Ainda jovem, o bispo teve contato com a prática na Polônia e a assumiu pessoalmente.
Ao chegar ao Brasil, em 2000, começou a divulgá-la na paróquia onde trabalhava. Anos depois, em 2020, durante a pandemia de Covid-19, propôs que a Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, no Rio de Janeiro, adotasse a iniciativa como um gesto concreto ao final da Semana Nacional da Vida. A partir daí, a Adoção Espiritual passou a se estruturar na arquidiocese e chegou a outras regiões do país.
“Eu pensei: isso não pode ser assim, nós precisamos também lembrar dos nossos irmãos e irmãs cujas vidas são ceifadas todos os dias. E, por causa disso, propus para que a nossa arquidiocese pudesse abraçar mais uma proposta em defesa da vida, exatamente a Adoção Espiritual, uma intercessão pelos nascituros”, recorda Dom Tiago.

Débora Meireles Martinho /Foto: Arquivo Pessoal
Débora conheceu a iniciativa justamente naquele ano e assumiu sua primeira Adoção Espiritual em 8 de outubro de 2020. Convidada por Dom Tiago, passou a integrar o pequeno grupo responsável pelo trabalho, inicialmente formado pelo bispo e seis colaboradores. Seis anos depois, a coordenadora revela que a iniciativa está presente em mais de 60 dioceses e reúne mais de 500 colaboradores treinados em todo o Brasil.
“Cada vez mais têm chegado pessoas com desejo, com sede, muitos sacerdotes, muitos bispos aderindo à Adoção Espiritual em suas dioceses e arquidioceses”, relata Débora
Oração que conduz ao acolhimento
A Adoção Espiritual não deve permanecer somente na oração, comenta Dom Tiago. Nas paróquias, os grupos são convidados inicialmente a aprofundar a vida de oração e o conhecimento sobre a Doutrina da Igreja a respeito do valor da vida humana. Com o amadurecimento da iniciativa, a proposta é que também possam colaborar com outras pastorais e obras de caridade. Entre as ações possíveis dentro desta iniciativa estão: atendimento psicológico e médico a mulheres em situação de vulnerabilidade, além da oferta de cestas básicas, enxovais e outras formas de auxílio, de acordo com as possibilidades de cada comunidade.
Para Dom Tiago, a dimensão espiritual não torna a iniciativa menos concreta. “A oração não é apenas uma oração. A oração é uma ferramenta que temos para implorar a Deus, que é fonte da vida, que é Criador onipotente, para que Ele aja na vida daquela criança ameaçada pelo aborto”, explica.
O bispo ressalta que a iniciativa não pretende julgar mulheres que enfrentam uma gravidez inesperada, mas estar próximo delas e de suas famílias diante de situações que podem envolver medo e dificuldades materiais. “Nós não queremos jamais julgar estas mulheres, não queremos impor nosso ponto de vista […]. Nós queremos estar junto com elas”, afirma.
Um compromisso para todas as idades
A simplicidade da proposta permite que pessoas de diferentes idades e estados de vida participem. Crianças que já saibam rezar, jovens, adultos, idosos, solteiros, casados e religiosos podem assumir o compromisso.
Débora conta que sua própria filha realizou a primeira Adoção Espiritual aos 9 anos, inicialmente rezando acompanhada pela mãe. Hoje, aos 15, continua a prática de forma independente. A coordenadora destaca também a participação de idosos, inclusive pessoas que encontraram na iniciativa uma nova forma de se sentirem responsáveis pelo cuidado de alguém.
Ao longo dos últimos anos, a coordenação também recebeu testemunhos de mulheres que haviam realizado abortos e encontraram na prática um caminho de reconciliação com a própria história, além de casais que enfrentavam a infertilidade e idosos que passaram a dedicar parte do dia à oração pelos filhos espirituais.
Para a coordenadora nacional da Adoção Espiritual, embora a oração seja dirigida a alguém desconhecido, o compromisso estabelecido durante os nove meses cria um vínculo de cuidado. “A gente salva vidas, mas a nossa vida também é salva. […] A pessoa que fica mais transformada somos nós”, testemunha.
Para quem deseja conhecer ou iniciar a Adoção Espiritual, há orientações pelas redes sociais, pelo site da iniciativa e por um aplicativo, no qual é possível acompanhar, de forma virtual, as etapas do desenvolvimento de um bebê ao longo da gestação. Os interessadas em levar a proposta às paróquias e dioceses podem participar de uma formação composta por cinco encontros on-line.
“Nesse momento, Deus conta com o sim de vocês. […] Que vocês deem esse passo na fé nesta Semana da Vida e se tornem pais e mães espirituais”, convida Débora.
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