Aparecida e Círio de Nazaré revelam força da devoção mariana no Brasil
- 08/10/2026
Duas das principais celebrações marianas do país reúnem milhões de fiéis e movimentam comunidades em torno da fé e da cultura
Julia Beck
Da Redação, com colaboração de Thiago Coutinho

Imagens de Nossa Senhora Aparecida e Nossa Senhora de Nazaré /Fotos: Canva
Duas das maiores manifestações de fé mariana do Brasil mobilizam o país neste mês de outubro. Em Aparecida (SP), milhares de romeiros participam da Festa de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, celebrada em 12 de outubro. Em Belém (PA), milhões de pessoas tomam as ruas no Círio de Nazaré, realizado no segundo domingo do mês – este ano em 11 de outubro.
Separadas por mais de 2,5 mil quilômetros e marcadas por tradições próprias, as duas celebrações têm em comum uma devoção que ultrapassa os espaços religiosos e alcança a vida familiar, a cultura, a economia e as relações sociais.
Uma Mãe que tem os traços do povo
A história da devoção a Nossa Senhora Aparecida remonta a 1717, quando pescadores encontraram a pequena imagem nas águas do Rio Paraíba do Sul. Para o prefeito de Igreja e um dos porta-vozes da Novena e Festa da Padroeira 2026, padre Jorge Américo, as características da imagem ajudam a compreender a identificação construída entre a padroeira e os brasileiros.
“Nossa Senhora se reveste do nosso povo”, afirma. Segundo o sacerdote, a Virgem “se reveste da cor, da dor, da esperança” especialmente daqueles que mais sofriam naquele período, como negros, pobres e escravizados. Essa identificação permanece presente na devoção atual. “Uma imagem negra, pequena, com as mãos postas, olhar sereno. É o jeito do nosso povo”, destaca.
Às vésperas do dia 12, a movimentação de romeiros se intensifica em Aparecida. Padre Jorge ressalta, contudo, que a motivação espiritual diferencia a peregrinação de uma simples viagem. “Quando se trata de Aparecida, a gente vem em romaria, porque a gente vem para rezar.”
Em 2026, a Novena e Festa da Padroeira tem como tema “Com Maria, em comunidade, conhecer e praticar a Palavra”. Segundo o sacerdote, a proposta recorda que “a Palavra de Deus deve nos fazer estar não só reunidos, mas unidos”, tendo Maria como exemplo daquela que acolheu e viveu a Palavra.
Círio transforma Belém
No Norte do país, a devoção a Nossa Senhora de Nazaré também transforma a rotina de uma cidade inteira. Reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, o Círio alcança a cultura, as relações familiares e a economia paraense. Somente na procissão principal de 2025, cerca de 2,6 milhões de pessoas participaram, segundo a organização.
“O Círio é, antes de tudo, a manifestação pública de fé e devoção a Nossa Senhora de Nazaré. Mas ele não é um evento de um dia só”, explica o coordenador do Círio 2026, Antonio Sousa.
Conhecida como “Natal dos paraenses”, a celebração é marcada pelo reencontro das famílias e também movimenta artesãos, comerciantes e trabalhadores. A própria corda do Círio é produzida no Pará com malva amazônica, envolvendo famílias de diferentes municípios.
Entre os símbolos mais conhecidos da festa, a corda reúne devotos que cumprem promessas, outros que carregam histórias de graças alcançadas, além dos que levam pedidos e sofrimentos. “Pelos pés descalços e pelas mãos firmes na corda, o devoto diz à Mãe, com o corpo inteiro, aquilo que muitas vezes não consegue dizer com palavras”, afirma Sousa.
O coordenador destaca também a solidariedade que surge entre os participantes. “Lado a lado, desconhecidos se ajudam, oferecem água, amparam quem cansa. Na corda, a dor de um vira o cuidado do outro.”
Fé, economia e solidariedade
A chegada de milhões de pessoas também movimenta a economia das duas cidades e envolve uma ampla estrutura de acolhimento aos romeiros. Em Belém, Antonio Sousa ressalta que essa dimensão não pode fazer com que a celebração seja reduzida a um espetáculo.
O tema do Círio 2026, “Maria, missionária que nos dá Jesus”, reforça, segundo ele, que a devoção deve gerar frutos concretos. A renda da Lojinha do Círio e dos produtos oficiais, por exemplo, ajuda a custear a celebração e as obras sociais da Paróquia de Nazaré, além de a festa valorizar artistas, artesãos e famílias que vivem do trabalho ligado à floresta.
Em Aparecida e Belém, diferentes expressões de fé revelam a força da devoção mariana no país. “Todos estão ali como filhos da mesma Mãe”, resume Antonio Sousa. Entre o manto da Padroeira e a corda de Nazaré, Maria permanece presente na fé e na cultura do povo brasileiro.
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