Após 39 anos, um Papa volta à Argentina em roteiro pela América do Sul

  • 29/10/2026

Entre marcos como Luján e Córdoba, a presença de Leão XIV evoca o legado pastoral de Francisco e busca renovar o testemunho cristão no país

Thiago Coutinho
Da redação

Vista aérea do Santuário de Luján, em Buenos Aires / Foto: Antonio Becerra Pegoraro – Reuters

De 6 a 17 de novembro, a América do Sul será a casa do Papa Leão XIV, que visitará o Uruguai, o Peru e a Argentina. Esta viagem apostólica se torna ainda mais marcante quando se recorda que o Santo Padre passou por uma recente operação para a retirada de um câncer no pulmão — o que causou dúvidas sobre sua vinda. E para este último país citado, a Argentina, a presença do Sucessor de Pedro toma contornos ainda mais especiais: há 39 anos um Papa não pisava em solo argentino.

“O que acontece com os Papas é que eles são Papas para a Igreja universal, não só para aqueles países que se reconhecem como católicos”, afirma o teólogo argentino Agustin Podestá. “São muitos países, é difícil que um Papa visite todos”, observa.

Além da alegria da visita em si, a ida do Santo Padre à Argentina tem um significado maior, como explica o sacerdote Máximo Ariel Jurcinovic, da diocese de San Isidro, localizada entre 20 e 28 km ao norte de Buenos Aires. “Teologicamente, [esta visita] nos transforma em missionários porque todos são bem-vindos”, exalta o padre. “Como diz o tema [‘Vai e anunciai’], todos nós precisamos ouvir sobre este impacto, mas também precisamos assumir isso como missão para renovar a nossa fé e o nosso testemunho como cristãos.”

Papa Francisco

Da Argentina, nasceu um Papa para a Igreja: Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, eleito em 2013 e que morreu em 2025. Em 12 anos de pontificado, porém, Francisco não chegou a visitar seu país natal, uma missão assumida agora por Leão XIV. “Quando ele era Bergoglio, conseguimos apreciar muito seu trabalho”, explica o teólogo.

Para Podestá, muitos queriam enquadrar Francisco entre diversas fissuras políticas, econômicas, ideológicas e sociais. “O Papa Francisco nos ensinou que, para sair do labirinto, saímos por cima dele, e não ficando só dentro dele. A unidade é superior ao conflito. Isso seria uniformidade. Precisamos garantir a unidade por cima dos conflitos”, observou.

“Para nós, os argentinos, Francisco sempre esteve presente; ele é o argentino mais importante da história”, exalta o padre Jurcinovic. Para o sacerdote, mesmo que o pontificado de Francisco não tenha se concretizado numa visita presencial, sua presença nunca deixou de ser sentida. “Francisco sempre esteve e está na Argentina”, ressalta. “A visita dele aconteceu em cada um dos seus gestos pastorais como Papa, em todos esses momentos que ficaram guardados no coração dos argentinos.”

A Virgem de Luján

Uma das paradas do Bispo de Roma na Argentina será no Santuário de Luján. Mas qual seria o simbolismo espiritual da inclusão do Santuário no roteiro oficial dessa viagem apostólica?

“Luján é para nós o coração da nossa fé”, enaltece o padre Jurcinovic. O sacerdote recorda que há pouco mais de um mês, dois milhões de argentinos peregrinaram até o Santuário de Luján provenientes de várias partes de Buenos Aires para um encontro mariano. “O povo argentino é profundamente mariano, um povo que ama profundamente Nossa Senhora e que encontra sempre em Luján um lugar de oração, de bênçãos e de encontros.”

Um peregrino toca uma escultura da Virgem de Luján durante a procissão anual à Basílica de Luján, em devoção à Virgem / Foto: Antonio Becerra Pegoraro – Reuters

A escolha de Córdoba

A inclusão da cidade de Córdoba, além da capital Buenos Aires, expressa a teologia da descentralização e o olhar da Igreja para o seu interior. “Quem escolheu Córdoba foi a Santa Sé”, antecipa o sacerdote. “A Argentina propôs também outros lugares, mas Córdoba foi a escolhida. Córdoba é uma terra de santos. Em cada um dos lugares a que ele for, será expressa a união de todo o povo argentino, de toda a nossa Igreja, com o Santo Padre”, reitera.

De alguma maneira, essa visita do Pontífice pode contribuir para a reconciliação e o fortalecimento da identidade católica na sociedade argentina. “O nosso povo tem uma identidade católica: as famílias continuam batizando os filhos, muitos jovens participam de comunidades e de missões como cristãos e como católicos”, reforça o padre da diocese de San Isidro.

O fortalecimento da identidade católica ocorrerá sobre um alicerce que já existe. “Acreditamos que a visita do Papa pode contribuir para que exista a reconciliação, só que isso vai depender dos argentinos e de nós”, pondera. “Confiamos que, em relação a tudo aquilo que o Papa nos deixar como ensinamento, mensagem e pregações, teremos que refletir e seguir para a frente para absorver tudo o que ele nos transmitirá”, finaliza.

A viagem do Papa Leão XIV à América do Sul percorrerá cerca de 31 mil quilômetros ao longo de um roteiro que inclui 10 cidades. O Santo Padre proferirá 36 discursos até o fim de sua jornada apostólica.

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FONTE: https://noticias.cancaonova.com/especiais/pontificado/leao-xiv/apos-39-anos-um-papa-volta-a-argentina-em-roteiro-pela-america-do-sul/


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