Arcebispo de Luján: "Um povo aguarda o Papa de braços abertos"
- 04/11/2026
O arcebispo Jorge Eduardo Scheinig descreve a atmosfera em Luján, o coração espiritual da Argentina, que o Papa Leão XIV visitará no dia 11 de novembro
Da redação, com Vatican News

Detalhe da imagem de Nossa Senhora de Luján / Foto: Divulgação Basílica Nuestra Señora de Luján
Com apenas 38 centímetros de altura, a imagem de Nossa Senhora de Luján, Padroeira da Argentina, encontra-se na Basílica a ela dedicada, a 70 quilômetros de Buenos Aires. A imagem é uma expressão marcante daquilo que o Papa Leão XIV chamou, por diversas vezes, de “o caminho da pequenez”. Esse é o caminho que Deus escolheu para descer ao meio da humanidade. Os pequeninos eram os preferidos de Jesus, e o Reino “cresce como a menor de todas as sementes lançadas na terra”.
“Esta lógica da pequenez”, disse o Papa na Catedral do Espírito Santo, em Istambul, no dia 28 de novembro de 2025, “é a verdadeira força da Igreja”.
Como não pensar na pequenez ao contemplar a pequena imagem da Virgem Maria, venerada há quase 400 anos e que, ainda hoje, atrai milhões de fiéis? É aqui, na Basílica Menor de Nossa Senhora de Luján — concluída em 1937 e projetada pelo arquiteto francês Uldéric Courtois —, que o Papa Leão fará uma parada no dia 11 de novembro, durante sua sexta Viagem Apostólica internacional.
“Nossa Senhora de Luján”, explicou o arcebispo de Mercedes-Luján, Dom Jorge Eduardo Scheinig, ao Vatican News, “nunca falou; jamais proferiu uma palavra ou transmitiu qualquer mensagem. Nossa Senhora de Luján caracteriza-se, precisamente, por esse silêncio — talvez semelhante ao da Mãe do Senhor no Evangelho, que falou muito pouco”.
Sua presença é, portanto, “perseverante”, “constante” e “materna”. Ela está ali para acolher súplicas, receber orações, enxugar lágrimas e restaurar as forças por meio de seu olhar. O Papa Francisco também falou sobre isso: o olhar da *Morenita* (a pequena Senhora de pele morena) é um olhar que “renova” e “dá força”.
No livro “She Is My Mother: Encounters with Mary” [‘Ela é minha Mãe: Encontros com Maria’, em tradução literal], do Padre Alexandre Awi Mello, relata-se que, quando o Papa Francisco atendia confissões no lado direito da Basílica de Nossa Senhora de Luján, as pessoas que haviam passado diante da imagem de Maria vivenciavam uma confissão mais profunda — ela havia tocado seus corações. O Papa costumava perguntar-lhes: “Você a viu?”. A resposta era sempre a mesma.
O vínculo do Papa Francisco com a “Morenita”
O Papa Francisco falou sobre Nossa Senhora de Luján e um milagre que envolveu a cura de uma menina, durante uma homilia na Missa celebrada na Casa Santa Marta, no Vaticano, em 20 de maio de 2013.
Ele relembrou a determinação do pai da menina que, ao saber que sua filha estava prestes a morrer, foi até o santuário mariano no meio da noite. Ao encontrá-lo fechado, agarrou-se aos portões de ferro e rezou incessantemente, alternando seus pedidos com lágrimas.
Ao retornar ao hospital, encontrou sua esposa chorando e os médicos perplexos. A menina havia se recuperado.
“A oração”, explicou o Papa Francisco, “realiza milagres, mas é preciso acreditar!”
O olhar de Maria transforma os corações das pessoas.
“A imagem é bem pequena”, relatou o arcebispo Scheinig, “mas a sua presença é imensamente poderosa. O seu olhar, também, é muito especial. Quando permitimos que a Virgem Maria olhe para nós, algo realmente acontece: as pessoas que vêm a Luján nunca saem exatamente como chegaram. Elas chegam de um jeito e partem transformadas.”
A proximidade do Papa Leão XIV
Como Prior Geral da Ordem de Santo Agostinho, Robert Prevost também visitou o Santuário de Luján. O arcebispo Scheinig confirmou esse fato, lembrando que encontrou o futuro Papa no local.
“Estamos nos preparando para acolher o Papa de braços e corações abertos”, acrescentou o arcebispo. “Ofereceremos a ele o abraço de todo o povo argentino.”
Também estão preparando uma surpresa, embora, com toda a razão, ninguém queira estragar a surpresa.
“A Argentina teve uma relação especial com o Papa Francisco. Ter um Papa da mesma nacionalidade, um filho desta terra, foi algo imensamente poderoso. É por isso que o povo argentino mantém uma relação especial com o papado e com o Papa. A relação particularmente próxima que tivemos com o Papa Francisco”, continuou o arcebispo Scheinig, “torna-nos muito abertos em relação ao Papa Leão. Para nós, um Papa não é alguém distante ou desconhecido, mas alguém próximo. Acreditamos que a presença de Leão renovará essa proximidade, essa amizade e essa comunhão. É por isso que estamos verdadeiramente felizes em recebê-lo aqui na América Latina, na Argentina e, claro, em Luján.”
À espera do Papa Leão
Enquanto isso, os preparativos para a chegada do Papa estão a todo vapor na Plaza Belgrano, em frente à Basílica. A praça é frequentemente utilizada para acolher grandes multidões. O evento mais recente foi uma peregrinação de jovens, realizada nos dias 3 e 4 de outubro, que reuniu aproximadamente 2,5 milhões de jovens. “Luján é um lugar profundamente amado pelo povo argentino”, enfatizou o arcebispo de Mercedes-Luján, “e a Virgem Maria ama o seu povo. É por isso que estamos nos preparando para acolher o Papa, bem como todas as pessoas que estarão presentes. Acreditamos que o número de participantes será muito grande.”
A hospitalidade é uma das características marcantes deste lugar. De fato, estão sendo realizados esforços para promover uma ação pastoral centrada no acolhimento ao próximo.
“Acreditamos”, explicou o arcebispo Scheinig, “que esta é a missão que nos foi confiada por Nossa Senhora de Luján: garantir que todos os que aqui chegam se sintam acolhidos, pois ela mesma nos acolhe sempre.”
Um povo de fé
Essa profunda devoção popular pode parecer contradizer as estatísticas dos últimos anos, que apresentam um cenário bastante desanimador, revelando uma queda na população católica de 76,5% em 2008 para 62,9% em 2019.
“Estudos estatísticos mostram que, embora a vinculação à Igreja como instituição esteja em declínio — ainda que os laços com a Igreja permaneçam fortes na América Latina —, a fé em Jesus e na Virgem Maria não está diminuindo”, ressaltou ele.
“Prestamos muita atenção a esse aspecto: nosso povo é um povo de fé, que continua em busca”, explicou o arcebispo de Mercedes-Luján. “Talvez essa realidade não seja totalmente evidente no momento, mas, na Argentina, o vínculo com a Igreja permanece forte, ainda que esteja se enfraquecendo. A fé, por outro lado, não está diminuindo.”
O arcebispo Scheinig também mantém um vínculo belo e profundo com Luján, local onde foi ordenado bispo. “Desde muito pequeno, minha mãe e minha avó me traziam aqui. Tenho uma fotografia de quando eu devia ter uns quatro ou cinco anos, junto com minha avó e minha mãe”, relembrou.
“Para mim, Luján é um lugar familiar, ao qual me sinto profundamente ligado e que amo; é um lugar que me traz grande conforto e força. Sinto-me profundamente conectado à Virgem Maria e às pessoas que a amam”, disse o arcebispo.
Rainha da Paz
Antes do Papa Leão XIV, São João Paulo II visitou Luján no dia 11 de junho de 1982, no auge da crise em torno do conflito pelas Ilhas Falkland — conhecidas na Argentina como Malvinas —, que estavam sob administração britânica. A guerra, ocorrida entre abril e junho de 1982, custou mais de 900 vidas.
A visita ocorreu após a viagem do Papa à Inglaterra. Em Buenos Aires, o Papa João Paulo II descreveu-se como um “peregrino em tempos difíceis”. Ele recordou os mortos e feridos no conflito, pedindo à “Rainha da Paz” que mostrasse o caminho para a resolução de disputas “em paz, justiça e respeito pela dignidade própria de cada nação”.
Cinco anos mais tarde, em 12 de abril de 1987, o Papa João Paulo II retornou ao país sul-americano para a segunda Jornada Mundial da Juventude, confiando a Argentina à Virgem de Luján, para que “a pátria argentina” pudesse ser “pacificada e reconciliada”.
“Que toda a Argentina permaneça fiel ao Evangelho e abra bem o seu coração a Cristo, Redentor da humanidade, esperança do gênero humano.”
“Que toda a Argentina permaneça fiel ao Evangelho e abra bem o seu coração a Cristo, Redentor da humanidade, esperança do gênero humano.”
A história de Nossa Senhora de Luján
Acredita-se que a pequena imagem de Nossa Senhora de Luján tenha chegado a solo argentino em maio de 1630, a bordo de um navio vindo de São Paulo, no Brasil, sob os cuidados de Manuel de los Ríos, um homem escravizado, natural de Angola.
Segundo a tradição, a carroça que transportava o caixote com a imagem chegou ao rio Luján e não pôde seguir adiante. Por esse motivo, a imagem permaneceu no local. Sua história logo se espalhou, e um grande número de peregrinos começou a chegar para venerá-la.
Mais tarde, o Papa Leão XIV concedeu permissão para que a imagem fosse coroada. A coroação ocorreu em maio de 1887, e a festa litúrgica de Nossa Senhora de Luján foi estabelecida para o sábado que antecede o quarto domingo após a Páscoa.
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