Assassinato do Padre Hamel: uma tragédia entre cristãos e muçulmanos

  • 24/07/2026

Há dez anos, o padre Jacques Hamel, pároco de Saint-Étienne-du-Rouvray, no norte da França, foi assassinado por dois terroristas enquanto celebrava a Santa Missa

Da redação, com Vatican News

Padre Jacques Hamel / Foto: Wikipedia

Diversas homenagens estão sendo prestadas na França no 10º aniversário do assassinato do padre Jacques Hamel em sua igreja, em 26 de julho de 2016. Iniciativas inter-religiosas focadas na compreensão entre cristãos e muçulmanos, exposições e momentos de oração e partilha estão sendo organizados, principalmente em Saint-Étienne-du-Rouvray. O cardeal Jean-Marc Aveline, presidente da Conferência Episcopal Francesa, presidirá uma Missa, transmitida no domingo por canais de televisão pública.

Embora a memória seja importante para as gerações mais jovens de hoje, também é preciso reconhecer que, em 10 anos, as relações entre cristãos e muçulmanos na França evoluíram, embora ainda exista um longo caminho a percorrer e que a desconfiança seja suscetível à instrumentalização.

Vaticana News — Irmão Jean-François Bour, como o assassinato do padre Hamel contribuiu para o avanço do diálogo cristão-muçulmano?
Irmão Jean-François Bour — O diálogo entre cristãos e muçulmanos, pelo menos na França, não se resume a uma simples relação de cortesia, mesmo antes de 2016. Essa relação já vinha se desenvolvendo desde a década de 1950. A Igreja na França criou um serviço específico em 1973 para as relações com os muçulmanos, permitindo que cristãos e católicos aprendessem sobre o Islã e se aprofundassem nas complexidades da história muçulmana e no funcionamento da religião. Mas, se quisermos identificar um verdadeiro ponto de virada, devemos situá-lo por volta de 2001. O ataque ao World Trade Center em Nova York gerou um despertar significativo. A partir daquele momento, as pessoas passaram a buscar compreender por que alguns grupos optam pela violência terrorista, e então teve início todo um processo de reflexão.

Vatican News — E o que mudou? Qual é a nova abordagem após esse ponto de virada inicial em 2001 e na sequência dos ataques da década de 2010 na França?
Irmão Bour — Da parte dos muçulmanos, por exemplo, houve uma espécie de choque, e para muitos, é uma experiência dolorosa porque muitas vezes não receberam, das gerações anteriores, uma educação islâmica que fosse voltada à violência ou ao caos. Estão se tornando extremamente conscientes da existência de grupos jihadistas e terroristas. Após o assassinato do padre Hamel, vimos delegações de alto nível chegarem à França, que foram a Paris para conversar com bispos e depois viajando para Saint-Étienne-du-Rouvray para apresentar suas condolências e expressar sua condenação ao ataque.

Vatican News — Este Islã, que não é reconhecido pela violência, tomou, em certa medida, a iniciativa no diálogo?
Irmão Bour — Não creio que possamos dizer que tomou formalmente a iniciativa do diálogo. Mas compreendeu que era necessário dar início a uma nova etapa no processo existente, no qual os cristãos, em geral, se mostraram bastante proativos. O secretário-geral da Liga Mundial Muçulmana, que é o porta-voz do wahabismo da Arábia Saudita em nível global, também esteve em Saint-Étienne-du-Rouvray. Participou, com o bispo Lebrun, de uma vigília em memória das vítimas. Estas figuras ilustres compreenderam que, mesmo sendo defensores de um certo conservadorismo islâmico, um certo rigorismo que pode ser propício a uma forma bastante agressiva de Islã, era absolutamente essencial desenvolver uma mensagem diferente.

Vatican News — Não existe também, entre os cristãos, quem sabe, uma espécie de incompreensão em relação aos outros, o que torna bastante fácil erguer muros de desconfiança?
Irmão Bour — Vemos, na sequência destas tragédias, pessoas — por vezes até mesmo cidadãos comuns — manifestarem-se para dizer que esta violência não lhes diz respeito. Vemos isso entre muçulmanos, entre cristãos também, e até mesmo entre não crentes. Essas pessoas dizem que não querem essa tendência continue. Muitas delas entenderam que precisam participar de grupos de diálogo e demonstrar apoio. Fiquei muito comovido, por exemplo, com a forma como um muçulmano de origem comoriana criou e doou uma pintura retratando o padre Hamel rezando em sua igreja. Muçulmanos foram ao cemitério em Saint-Étienne-du-Rouvray para depositar flores.

Vatican News — Dez anos depois, para muitos jovens, o assassinato do padre Hamel pode parecer um evento abstrato e distante. Qual a importância da transmissão da memória?
Irmão Bour — Este é certamente o aspecto mais complexo. Na história do padre Hamel, como os muçulmanos claramente perceberam, a tragédia da morte de um homem é agravada pela tragédia de um homem assassinado durante a oração. Muitos muçulmanos expressaram seu horror e profunda repulsa por essa violência durante uma celebração religiosa. Para muitos jovens cristãos na França hoje, há uma sensação palpável de inquietação. Na França atual, tanto na comunidade cristã quanto entre os não cristãos, existe uma espécie de ansiedade que permeia o clima político do país. Portanto, o desafio educacional de hoje é muito significativo.

Vatican News — A mensagem de diálogo, de perdão, de reconciliação, enviada no dia seguinte ao assassinato do padre Hamel pela Igreja de França, também surpreendeu e aliviou grandemente as autoridades francesas.
Irmão Bour — Há décadas que construímos uma reflexão sobre o Islã, sobre o diálogo islâmico-cristão em França. Não remonta a 2016. E a Igreja de França está fazendo o seu trabalho ao recordar que não pode aceitar que responsabilizemos todos os muçulmanos pela morte do padre Hamel, nem responsáveis ​​por todos os atos terroristas cometidos por pessoas que mergulharam numa ideologia mortal.

Vatican News — Quais seriam os obstáculos que ainda retardariam um diálogo inter-religioso plenamente pacífico dez anos após esta tragédia?
Irmão Bour — O que hoje realmente retarda o diálogo inter-religioso é pensar que temos outras coisas a fazer numa época que nos confronta com numerosos desafios que já não dizem respeito apenas ao diálogo inter-religioso. Somos um pouco tentados a desistir e abraçar quase uma forma de resistência, fazendo da nossa vida cristã ou evangelização um baluarte contra os muçulmanos. Acontece que ouvimos esse discurso. Não para todos, felizmente. Acredito que precisamos ir além disso. Eu realmente encorajaria todos a arregaçar as mangas hoje e acreditar que podemos conversar e nos entender. Na minha opinião, precisamos colocar um pouco de esforço na máquina, um pouco de comprometimento.

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FONTE: https://noticias.cancaonova.com/mundo/assassinato-do-padre-hamel-uma-tragedia-entre-cristaos-e-muculmanos/


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