Cultura do descarte desafia a defesa da vida no Brasil, frisa especialista
- 06/07/2026
Após a intenção de oração de julho do Papa Leão XIV, especialista analisa os desafios para proteger a vida da concepção ao fim natural
Thiago Coutinho,
Da redação

A defesa da vida em todas as suas etapas foi o pedido do Papa Leão XIV para a intenção de oração no mês de julho / Foto: Heike Mintel por Unsplash
Em julho, o Papa Leão XIV, em sua tradicional intenção de oração, pediu aos fiéis orações pelo respeito à vida humana. O Sucessor de Pedro incitou que os católicos pensem que cada pessoa deve ser acolhida, protegida e respeitada em todas as fases, desde a concepção até o seu fim natural, promovendo a dignidade e combatendo a cultura do descarte.
O Santo Padre, de maneira sucinta, pede cuidado em todas as etapas da vida. “Realmente, a vida precisa de cuidado em todas as suas etapas”, corrobora Lenise Garcia, membro da Comissão Especial de Bioética da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), doutora em Microbiologia, além de membro do Conselho Nacional de Saúde em representação da Pastoral da Pessoa Idosa, da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) e presidente do Movimento Nacional da Cidadania pela Vida – Brasil sem Aborto e Diretora da Associação Nacional Pró Vida Família.
Existem gargalos na realidade brasileira contemporânea que, segundo a médica, deixam a vida mais desprotegida. Medidas que requerem a atenção da Igreja e dos fiéis. “No Brasil, atualmente, eu diria que a vida, desde a concepção, conta com uma facilitação do aborto. Não na legislação, mas na prática. Então, vai se ampliando o entendimento em relação às exceções que estão no Código Penal, inclusive tratando como aborto legal”, explica Lenise.
Os idosos e os mais vulneráveis também preocupam a especialista. “Há um descuido no final da vida também”, aponta. “Entre os idosos, começa-se a criar uma mentalidade de eutanásia, embora não seja permitida na legislação brasileira, mas esse debate a gente já vê chegando por aqui também. Então, e ao longo de toda a vida, para falar em mais vulneráveis, eu diria que também merece uma especial atenção à infância, muito assediada por redes sociais”.
Neste ponto, a membro da Comissão Especial de Bioética da CNBB acredita que as crianças são muito expostas a temas para os quais falta maturidade para lidar. “Estão sendo expostas muito precocemente. Então, eu penso que é necessária toda uma atenção às famílias para que cuidem também, especialmente desses aspectos”, frisa.
Dom de Deus
A intenção do Papa pede que a vida seja reconhecida como um “dom de Deus”. A Igreja se coloca, assim, contra a cultura do descarte, que reduz o ser humano à sua utilidade ou capacidade econômica. “As coisas são úteis justamente para a vida, para as pessoas. Então, as pessoas são fim, não são meio”, pondera Lenise. “Independente se estão ou não produzindo algo, as pessoas devem ser valorizadas por elas mesmas”, acrescenta.
Para a presidente do Movimento Nacional da Cidadania pela Vida é importante que este conceito seja difundido dentro da família. Ela acredita que só assim a vida poderá ser respeitada em todas as suas etapas. “É preciso dar a essas pessoas [idosos, crianças, vulneráveis etc.] aquilo de que necessitam, seja do ponto de vista espiritual ou afetivo. A família realmente é o melhor lugar para que isso aconteça. Se há um lugar em que a pessoa é reconhecida por aquilo que é e não por aquilo que faz, esse lugar é a família”, assegura.
Defender a vida sob diversos aspectos
Muitas vezes, o debate sobre a vida foca exclusivamente em temas como aborto e eutanásia. Lenise enfatiza que a Igreja precisa, porém, trabalhar a conscientização de que defender a vida também significa combater a miséria extrema e a violência urbana. “A Igreja sempre foi a que cuidou da pessoa humana em todos os estágios de vida. Tanto é que os hospitais nasceram na Igreja”, recorda.
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