Diálogo e convivência sustentam a família frente aos desafios cotidianos
- 10/08/2026
Pastoral Familiar reforça importância do diálogo presencial e da imposição de limites no uso da tecnologia; esta é a Semana da Família no Mês Vocacional
Thiago Coutinho
Da redação

“Família, torna-te aquilo que és” é o tema escolhido pela Igreja para celebrar a Semana da Família este ano / Foto: Tima Miroshnichenko de Pexels via canva
Nesta segunda semana de agosto, a Igreja celebra, no contexto do Mês Vocacional, a Semana Nacional da Família. O tema desta edição convida a refletir sobre a essência do lar: “Família, torna-te aquilo que és”. Para a Igreja, de maneira breve e sucinta, a família é definida como o lugar onde a vida humana nasce, é acolhida como dom de Deus e é desenvolvida integralmente.
Nos moldes contemporâneos, entretanto, esse modelo vem sendo fragmentado por diversas razões. Entre elas, destaca-se a lógica dos algoritmos e a atenção disputada pelas telas. Diante disso, as famílias precisam reaprender a priorizar a convivência presencial e a resgatar a sua própria identidade.
O assessor da Pastoral Familiar, padre Rodolfo Chagas, analisa a situação de uma maneira equilibrada. “As tecnologias e os algoritmos não são maus em si, pois podem aproximar as pessoas e favorecer o trabalho, a formação e a evangelização”, enfatiza o sacerdote. “O problema surge quando a tecnologia deixa de ser um instrumento e passa a organizar silenciosamente o tempo, os afetos e as escolhas da casa. Então, podemos estar fisicamente próximos, mas ao mesmo tempo distantes, vivendo um isolamento social dentro do próprio lar. É preciso reconhecer que a presença presencial não acontece de forma puramente espontânea.”
O padre aconselha que a família estabeleça regras e horários de convívio para que cada membro se sinta acolhido e parte de um todo. “Cada família deve definir lugares de encontro dentro de casa. Uma refeição sem o celular, um momento diário de conversa ou de oração em conjunto, passeios e momentos de convivência intergeracional — entre avós, idosos, crianças e jovens — são caminhos para recuperar o que o Papa Francisco tanto chamava de ‘a arte da escuta’. Muitas crises familiares não começam pela ausência de amor, mas pela falta de tempo e de disponibilidade para expressar esse afeto.”
É na simplicidade dos atos que reside a força para manter o lar unido. “Perguntas simples como ‘Como você está?’ e ‘O que aconteceu hoje?’ ajudam profundamente no relacionamento familiar”, observa o padre Rodolfo.
Bets e dependência de telas
A dependência de telas e a expansão dos jogos de aposta online (bets) deixaram de ser problemas puramente individuais e se tornaram crises familiares. Estimativas apontam que as famílias brasileiras acumularam uma perda líquida de R$ 62,5 bilhões em apostas online.
“Este é um assunto sério e delicado”, afirma o padre Rodolfo. “As apostas de fato se tornaram uma crise dentro das nossas casas. Chegam até nós muitas situações de famílias que estão perdendo seus bens e ficando endividadas. Vemos jovens de 17 a 19 anos em desespero por causa das dívidas de apostas online”, lamenta o sacerdote.
Para o religioso, é necessário que a sociedade se organize e crie uma rede colaborativa para apoiar as vítimas da ludopatia — o vício em jogos. “Essas pessoas precisam da ajuda da Igreja e da família para saírem do vício. É necessária muita força de vontade por parte dos familiares para impor limites e buscar uma solução que envolva tanto o cuidado espiritual quanto a saúde mental.”
Estímulos em excesso
Diante do bombardeio de estímulos tecnológicos, desacelerar parece um desafio inalcançável. As famílias precisam trilhar caminhos práticos e criar pequenos hábitos para reinventar a rotina e resgatar tradições saudáveis — como as refeições à mesa —, sem a necessidade de isolar totalmente os filhos do mundo digital.
“Desacelerar não significa abandonar a tecnologia, mas recuperar a liberdade de decidir quando, como e para que vamos utilizá-la”, pondera o sacerdote. “Não devemos ter medo do nosso tempo, que é o tempo dos algoritmos, da inteligência artificial e dos meios digitais, mas sim aprender a evangelizar e a viver nele.”
O sacerdote dá sugestões práticas para fortalecer os laços diários. “A família pode começar escolhendo um ou dois dias na semana para dar os primeiros passos. O importante é iniciar o processo. Mais do que preparar algo elaborado, o essencial é transformar o momento — como um lanche da tarde ou um bolo de fubá com café — em um ponto de encontro e partilha”, sugere.
Família, a primeira comunidade
No contexto do Mês Vocacional, entendendo a família como a primeira comunidade e ambiente de cuidado, é fundamental preservar essa força em um mundo marcado por divisões.
“‘Deus é amor’, como lembra a Primeira Carta de São João, e a exortação Familiaris Consortio utiliza essa premissa para explicar que a identidade da família está em Deus”, afirma o padre. “A espiritualidade, o diálogo e a convivência formam uma rede que sustenta os desafios do cotidiano. Por isso, a Pastoral Familiar trabalha esse acompanhamento com e para as famílias, começando dentro de nossas casas e expandindo para toda a sociedade”, finaliza.
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