Missão não é multiplicar tarefas, mas testemunhar Cristo, frisa bispo

  • 20/10/2026

No Mês Missionário, bispo destaca que a missão está na essência da Igreja e deve ser vivida pelos cristãos na família, no trabalho e na sociedade

Julia Beck
Da Redação

Fiel ergue um crucifixo de madeira com a imagem de Jesus Cristo e segura um terço durante momento de oração.

Fiel segura crucifixo e terço em gesto de fé e oração /Foto: Daniel Xavier

A missão pertence à própria identidade e razão de ser da Igreja e, por consequência, à vocação de cada cristão. A afirmação é do presidente da Comissão Episcopal para a Ação Missionária e Cooperação Intereclesial da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e bispo de Rondonópolis-Guiratinga (MT), Dom Maurício da Silva Jardim. Neste Mês Missionário, celebrado pela Igreja ao longo de outubro, o bispo recorda o ensinamento do Concílio Vaticano II, mais especificamente o Decreto Ad Gentes, que frisa: “A Igreja peregrina é, por sua natureza, missionária, visto que tem a sua origem, segundo o desígnio de Deus Pai, na ‘missão’ do Filho e do Espírito Santo.”

Segundo Dom Maurício, o Concílio representou um avanço na compreensão teológica da missão, que não deve ser reduzida a iniciativas ou projetos específicos. “A razão de ser da Igreja é ser missionária. Portanto, a missão não se reduz às atividades, a algumas horas do dia, não se reduz ao mês missionário, a um projeto, a um programa missionário, mas a missionariedade é do ser da Igreja. Por isso, é todos os meses do ano, todos os dias, todas as horas do dia. Está no DNA da Igreja”, sublinha.

Missão como essência e ação

Dom Maurício Jardim / Foto: Arquivo Pessoal

O bispo explica que essa compreensão pode ser observada a partir de duas dimensões da missão: paradigmática e programática. A dimensão paradigmática diz respeito justamente à natureza missionária da Igreja. A missão torna-se o eixo a partir do qual toda a vida eclesial deve ser compreendida. Já a dimensão programática se concretiza por meio de encontros, formações, projetos e outras iniciativas de evangelização.

Essa identidade tem sua origem no próprio mandato de Cristo. Ao enviar seus discípulos para anunciar o Evangelho, Jesus deixa uma missão que, segundo o bispo, não pode ser compreendida como algo opcional.

“A Igreja nasce com o ‘Ide’ de Jesus. O ‘Ide’ está no verbo imperativo, então não é opcional a missionariedade na Igreja. O ‘Ide’ de Jesus é um ‘Ide’ sem fronteiras. Ele envia para anunciar o Evangelho até os confins do mundo”, explica.

Uma missão sem fronteiras

Para Dom Maurício, o envio de Cristo continua se concretizando na Igreja contemporânea em diferentes âmbitos. A missão começa nos ambientes mais próximos, como a casa, a comunidade e a pastoral, alcança a sociedade e também ultrapassa fronteiras territoriais.

No Brasil, o bispo exemplifica que essa dimensão se expressa por meio do Projeto Igrejas-Irmãs, que promove a cooperação entre dioceses, e de iniciativas ad gentes mantidas por regionais da CNBB. Há também experiências de cooperação internacional com o envio de missionários e missionárias em países como Moçambique, Guiné-Bissau e Timor-Leste.

“O envio de Jesus é para os lugares aonde Ele próprio devia ir. Lendo os Evangelhos, vemos que Jesus vai de aldeia em aldeia, atravessa as fronteiras. A missão não se restringe a um pequeno território”, reforça.

Todo batizado é missionário

A responsabilidade pelo anúncio do Evangelho, contudo, não pertence apenas aos que atuam em terras de missão. Dom Maurício aponta que a vocação missionária nasce no Batismo e, por isso, alcança todos os cristãos.

“Todo batizado é um missionário”, recorda. Segundo ele, a compreensão sobre quem é o missionário foi ampliada ao longo do tempo. “Antes se compreendia que os missionários eram os padres, as religiosas, aqueles que vinham de outros países ou aqueles que saíam do Brasil para outros países. Esta compreensão hoje é mais alargada, porque o cristão leigo e leiga que é batizado se torna um missionário na sua família, no seu trabalho, na sociedade.”

Ser missionário no cotidiano também não significa, necessariamente, acumular atividades dentro da Igreja. A vocação, prossegue o bispo, pode se manifestar pelo testemunho cristão nos diferentes ambientes da sociedade. “A missão não significa multiplicar muitas tarefas, mas é um testemunho de vida do ser cristão, presente no mundo, na sociedade, vivendo os valores da justiça, da fraternidade, da paz, um testemunho de vida coerente. Aí o cristão é sal da terra, é luz do mundo, vivendo a sua vocação batismal missionária”, acrescenta.

Dom Maurício resume em três dimensões as formas pelas quais cada cristão pode cooperar concretamente com a missão: oração, partilha e envio. “A primeira forma é com os ‘joelhos que rezam’”, afirma. Para ele, a oração pela missão, pelos missionários e por uma Igreja em permanente estado de missão constitui uma das primeiras formas de participação dos fiéis. A segunda é representada pelas “mãos que partilham”, especialmente por meio da coleta missionária, destinada a colaborar materialmente com o trabalho de evangelização realizado em diferentes partes do mundo. Por fim, o envio, entendido não apenas como partir para outro país ou território, mas como fazer da própria vida uma missão. “No mundo do trabalho, no mundo da família, no nosso cotidiano, nós podemos viver a missão que é de Deus. Nós podemos cooperar com a missão de Deus, porque o protagonista da missão é o próprio Espírito Santo”, afirma.

Mês Missionário reforça vocação dos batizados

Em 2026, a celebração do Dia Mundial das Missões completa 100 anos de sua instituição pelo Papa Pio XI. Celebrada no penúltimo domingo de outubro, a data foi recordada neste domingo, 18. O tema escolhido pelo Papa Leão XIV para a ocasião foi “Um em Cristo, unidos na missão”. Para Dom Maurício, a proposta evidencia que a ação missionária nasce, antes de tudo, da união com Jesus.

“No centro da missão está o mistério da união com Cristo. A intimidade com Cristo, a vivência dos sacramentos, alimentar a espiritualidade, viver uma vida conectada com Cristo nos faz ser ainda mais missionários, porque a missão parte deste encontro com Cristo”, explica. A segunda parte do tema, segundo o bispo, chama atenção para a comunhão entre os diferentes carismas, ministérios e vocações existentes na Igreja. “Unidos significa caminhar juntos, cooperar juntos nesta mesma missão que é de Deus.”

Ao longo de outubro, materiais preparados pelas Pontifícias Obras Missionárias (POM), como a oração do Mês Missionário, roteiros para encontros, vídeos com testemunhos e a mensagem do Papa, buscam favorecer a formação de uma consciência missionária entre os fiéis.

O período também é marcado pela oração pelos missionários e pela coleta realizada por ocasião do Dia Mundial das Missões. Os recursos arrecadados colaboram com a ação evangelizadora da Igreja em territórios missionários ao redor do mundo.

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FONTE: https://noticias.cancaonova.com/igreja/missao-nao-e-multiplicar-tarefas-mas-testemunhar-cristo-frisa-bispo/


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