“Não se trata de números”: Papa faz apelo pelas crianças migrantes

  • 14/08/2026

Na mensagem para o próximo Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, Leão XIV destaca o sofrimento dos menores e a responsabilidade de protegê-los

Julia Beck
Da Redação

O Papa Leão XIV abraça uma criança no centro de migrantes "Las Raices", em San Cristóbal de La Laguna, Tenerife, Ilhas Canárias, Espanha, em 12 de junho de 2026, onde se encontrou com migrantes e organizações humanitárias como parte de uma viagem apostólica de sete dias à Espanha, com visitas a Madri, Barcelona e às Ilhas Canárias.

Papa abraça criança migrante durante passagem pelas Ilhas Canárias, em junho passado /Foto: REUTERS/Yara Nardi

A Santa Sé divulgou nesta sexta-feira, 14, a mensagem do Papa Leão XIV para o 112º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado. O texto, assinado pelo Santo Padre na última terça-feira, 11, memória de Santa Clara de Assis, tem como tema “Mesmo uma só destas crianças” (cf. Mt 18, 10).

Na mensagem, o Pontífice explica que a frase chama a atenção dos católicos e de toda a sociedade para as crianças e adolescentes diretamente envolvidos na experiência da migração e da fuga, para a solicitude com eles e para a promessa do Senhor: «quem receber um destes meninos em meu nome é a mim que recebe» (Mc 9, 37).

Os mais vulneráveis

O Santo Padre enfatiza que os menores estão entre os mais vulneráveis nos fluxos migratórios mundiais. “Todos os anos, milhões de crianças e adolescentes são obrigados a abandonar a sua terra devido a guerras, pobreza, violência, catástrofes ambientais e outras tragédias”, aponta.

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O Papa lamenta que esse número continue a aumentar e ressalta que o sofrimento não se esgota no trajeto. Muitos jovens perdem familiares e amigos, testemunham violências indescritíveis, enfrentam o afastamento da família e vivem condições extremas e traumáticas. Também há casos de separação dos pais em razão do repatriamento.

“A este cenário, em si já dramático, somam-se outras tragédias: as mortes ao longo das rotas migratórias, o tráfico e a exploração, o recrutamento de menores para o emprego em conflitos armados, a violência sexual, os casamentos forçados e as atrocidades sofridas ou testemunhadas durante a viagem. A sua dignidade é espezinhada de demasiadas formas”, escreve.

Luz em meio à escuridão

Leão XIV cita o Papa Francisco ao recordar a mensagem escrita por ele, em 2017, para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado. Na ocasião, Francisco afirmou que as crianças “são três vezes mais vulneráveis” por serem menores de idade, estrangeiras e indefesas.

Em meio a “tanta escuridão”, Leão XIV destaca a luz da solidariedade. Muitas pessoas, famílias, instituições civis e comunidades eclesiais optam por não virar as costas aos migrantes e abrem as portas de suas casas “para devolver o calor de um lar a estas criança”. Para o Papa, aqueles que ajudam os migrantes testemunham que o amor pode vencer a indiferença.

Cada criança importa

Diante dessa realidade, o Santo Padre explica o tema escolhido. “Penso numa palavra de Jesus que interpela profundamente a consciência de cada um: «Quem receber um menino como este, em meu nome, é a mim que recebe» (Mt 18, 5). Não se trata de números ou estatísticas. O Evangelho convida-nos a não fazer cálculos: mesmo um só”, frisa.

Leão XIV recorda que cada criança e cada ser humano possuem uma dignidade infinita, por serem imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1, 26).

“Perante cada menor migrante, somos chamados a realizar um ato de humanidade e de fé: na criança, com efeito, podemos acolher e encontrar o Senhor. Este apelo torna-se ainda mais premente à luz da outra afirmação do Senhor no Evangelho de Mateus: «Era estrangeiro e acolhestes-me» (Mt 25, 35)”, destaca.

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O Papa alerta que os menores migrantes podem ser mais facilmente reduzidos à invisibilidade, sobretudo quando não contam com adultos que os protejam e apoiem. Por isso, ressalta a necessidade de os países de origem atuarem sobre as causas que obrigam crianças e adolescentes a fugir, enquanto os países de trânsito e chegada devem garantir proteção e acolhimento.

“Não podemos permanecer indiferentes, nem habituar-nos a tanto sofrimento (…). Na nossa vida pessoal, mesmo um só destes pequeninos chama-nos a abrir os olhos e o coração para uma escuta profunda da sua história, dos receios e dos sonhos de cada um deles, superando aquele distanciamento que reduz o ser humano a um dado estatístico que não nos envolve diretamente”, ressalta.

Uma Igreja que acolhe

Na vida eclesial, o Santo Padre chama a Igreja a fazer do acolhimento não um conceito abstrato, mas uma prática pastoral constante. Ele pede aos católicos que não deleguem essa missão apenas a instituições ou associações com carismas específicos, mas que toda a comunidade cristã considere os migrantes seus filhos e se aproxime da história concreta de cada um.

O Pontífice também faz um apelo para que refugiados e migrantes sejam integrados e valorizados como membros de pleno direito da família eclesial, com novos percursos educativos e espirituais, inclusive personalizados, que superem a lógica do mero assistencialismo.

Nesse sentido, considera fundamental prevenir a solidão, o isolamento e a rejeição, que também podem atingir os filhos dos migrantes, além de promover dinâmicas de encontro e integração.

Responsabilidade compartilhada

No diálogo entre as diferentes religiões, Leão XIV ressalta que a vulnerabilidade dos menores não conhece fronteiras confessionais e une todos em uma responsabilidade humanitária e espiritual compartilhada. Para ele, essa realidade pode favorecer um diálogo inter-religioso concreto, no qual os fiéis cooperem na construção de redes de proteção.

“As comunidades de fé são chamadas a construir espaços onde cada menina e cada menino sejam respeitados e valorizados nas respectivas identidades culturais, prevenindo o risco de radicalização por parte de grupos extremistas. Em última instância, proteger um menor significa salvaguardar a marca divina nele impressa”, frisa.

Ao se dirigir às instituições públicas e privadas, o Papa recorda que elas são chamadas a colocar no centro a proteção e a dignidade de cada criança e adolescente, adotando instrumentos jurídicos eficazes, promovendo o reagrupamento familiar e evitando os traumas da separação.

“Confiemos os menores migrantes e refugiados à proteção maternal da Santíssima Virgem Maria, que, juntamente com São José e com Jesus ainda criança, conheceu a feroz violência de Herodes e o drama do exílio no Egito (cf. Mt 2, 13-15); que seja Ela a acompanhar os seus passos e a ajudar as nossas comunidades a tornarem-se sinais vivos e fidedignos do Evangelho”, conclui.

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FONTE: https://noticias.cancaonova.com/especiais/pontificado/leao-xiv/nao-se-trata-de-numeros-papa-faz-apelo-pelas-criancas-migrantes/


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