“Não se trata de números”: Papa faz apelo pelas crianças migrantes
- 14/08/2026
Na mensagem para o próximo Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, Leão XIV destaca o sofrimento dos menores e a responsabilidade de protegê-los
Julia Beck
Da Redação

Papa abraça criança migrante durante passagem pelas Ilhas Canárias, em junho passado /Foto: REUTERS/Yara Nardi
A Santa Sé divulgou nesta sexta-feira, 14, a mensagem do Papa Leão XIV para o 112º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado. O texto, assinado pelo Santo Padre na última terça-feira, 11, memória de Santa Clara de Assis, tem como tema “Mesmo uma só destas crianças” (cf. Mt 18, 10).
Na mensagem, o Pontífice explica que a frase chama a atenção dos católicos e de toda a sociedade para as crianças e adolescentes diretamente envolvidos na experiência da migração e da fuga, para a solicitude com eles e para a promessa do Senhor: «quem receber um destes meninos em meu nome é a mim que recebe» (Mc 9, 37).
Os mais vulneráveis
O Santo Padre enfatiza que os menores estão entre os mais vulneráveis nos fluxos migratórios mundiais. “Todos os anos, milhões de crianças e adolescentes são obrigados a abandonar a sua terra devido a guerras, pobreza, violência, catástrofes ambientais e outras tragédias”, aponta.
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O Papa lamenta que esse número continue a aumentar e ressalta que o sofrimento não se esgota no trajeto. Muitos jovens perdem familiares e amigos, testemunham violências indescritíveis, enfrentam o afastamento da família e vivem condições extremas e traumáticas. Também há casos de separação dos pais em razão do repatriamento.
“A este cenário, em si já dramático, somam-se outras tragédias: as mortes ao longo das rotas migratórias, o tráfico e a exploração, o recrutamento de menores para o emprego em conflitos armados, a violência sexual, os casamentos forçados e as atrocidades sofridas ou testemunhadas durante a viagem. A sua dignidade é espezinhada de demasiadas formas”, escreve.
Luz em meio à escuridão
Leão XIV cita o Papa Francisco ao recordar a mensagem escrita por ele, em 2017, para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado. Na ocasião, Francisco afirmou que as crianças “são três vezes mais vulneráveis” por serem menores de idade, estrangeiras e indefesas.
Em meio a “tanta escuridão”, Leão XIV destaca a luz da solidariedade. Muitas pessoas, famílias, instituições civis e comunidades eclesiais optam por não virar as costas aos migrantes e abrem as portas de suas casas “para devolver o calor de um lar a estas criança”. Para o Papa, aqueles que ajudam os migrantes testemunham que o amor pode vencer a indiferença.
Cada criança importa
Diante dessa realidade, o Santo Padre explica o tema escolhido. “Penso numa palavra de Jesus que interpela profundamente a consciência de cada um: «Quem receber um menino como este, em meu nome, é a mim que recebe» (Mt 18, 5). Não se trata de números ou estatísticas. O Evangelho convida-nos a não fazer cálculos: mesmo um só”, frisa.
Leão XIV recorda que cada criança e cada ser humano possuem uma dignidade infinita, por serem imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1, 26).
“Perante cada menor migrante, somos chamados a realizar um ato de humanidade e de fé: na criança, com efeito, podemos acolher e encontrar o Senhor. Este apelo torna-se ainda mais premente à luz da outra afirmação do Senhor no Evangelho de Mateus: «Era estrangeiro e acolhestes-me» (Mt 25, 35)”, destaca.
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O Papa alerta que os menores migrantes podem ser mais facilmente reduzidos à invisibilidade, sobretudo quando não contam com adultos que os protejam e apoiem. Por isso, ressalta a necessidade de os países de origem atuarem sobre as causas que obrigam crianças e adolescentes a fugir, enquanto os países de trânsito e chegada devem garantir proteção e acolhimento.
“Não podemos permanecer indiferentes, nem habituar-nos a tanto sofrimento (…). Na nossa vida pessoal, mesmo um só destes pequeninos chama-nos a abrir os olhos e o coração para uma escuta profunda da sua história, dos receios e dos sonhos de cada um deles, superando aquele distanciamento que reduz o ser humano a um dado estatístico que não nos envolve diretamente”, ressalta.
Uma Igreja que acolhe
Na vida eclesial, o Santo Padre chama a Igreja a fazer do acolhimento não um conceito abstrato, mas uma prática pastoral constante. Ele pede aos católicos que não deleguem essa missão apenas a instituições ou associações com carismas específicos, mas que toda a comunidade cristã considere os migrantes seus filhos e se aproxime da história concreta de cada um.
O Pontífice também faz um apelo para que refugiados e migrantes sejam integrados e valorizados como membros de pleno direito da família eclesial, com novos percursos educativos e espirituais, inclusive personalizados, que superem a lógica do mero assistencialismo.
Nesse sentido, considera fundamental prevenir a solidão, o isolamento e a rejeição, que também podem atingir os filhos dos migrantes, além de promover dinâmicas de encontro e integração.
Responsabilidade compartilhada
No diálogo entre as diferentes religiões, Leão XIV ressalta que a vulnerabilidade dos menores não conhece fronteiras confessionais e une todos em uma responsabilidade humanitária e espiritual compartilhada. Para ele, essa realidade pode favorecer um diálogo inter-religioso concreto, no qual os fiéis cooperem na construção de redes de proteção.
“As comunidades de fé são chamadas a construir espaços onde cada menina e cada menino sejam respeitados e valorizados nas respectivas identidades culturais, prevenindo o risco de radicalização por parte de grupos extremistas. Em última instância, proteger um menor significa salvaguardar a marca divina nele impressa”, frisa.
Ao se dirigir às instituições públicas e privadas, o Papa recorda que elas são chamadas a colocar no centro a proteção e a dignidade de cada criança e adolescente, adotando instrumentos jurídicos eficazes, promovendo o reagrupamento familiar e evitando os traumas da separação.
“Confiemos os menores migrantes e refugiados à proteção maternal da Santíssima Virgem Maria, que, juntamente com São José e com Jesus ainda criança, conheceu a feroz violência de Herodes e o drama do exílio no Egito (cf. Mt 2, 13-15); que seja Ela a acompanhar os seus passos e a ajudar as nossas comunidades a tornarem-se sinais vivos e fidedignos do Evangelho”, conclui.
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