Nigéria: "As pessoas vivem com medo, de norte a sul", diz sacerdote
- 31/05/2026
Não cessa a série de violências na Nigéria, as pessoas vivem aterrorizadas e as ações terroristas não pouparam ninguém, independente da religião
Da redação, com Vatican News

Foto: Canva
“A situação atual no país é dramática, para dizer pouco. Do Norte ao Sul, do Leste ao Oeste, as pessoas vivem aterrorizadas”, com medo de serem assassinadas nas ruas ou de verem suas casas queimadas e seus entes queridos sequestrados.
O Padre Augustine Ghado, decano do Decanato de Gujeni e reitor do Seminário Menor de São Pedro, em Katari, – uma comunidade rural no Estado de Kaduna, região centro-norte do país, – não leva mais em consideração a onda de violências, por ter-se tornado tragicamente normal, como aquela que abalou o Estado de Kwara, no oeste do país, há menos de quatro dias: os bandidos atacaram a delegacia, incendiaram o palácio de um emir e sequestraram uma dezena de pessoas.
Algumas horas antes, outro grupo armado atacou os fiéis, que participavam de uma vigília de oração, na cidade vizinha de Ekiti, onde mataram três pessoas e sequestraram pelo menos 25.
Normalidade trágica
Trata-se, portanto de uma normalidade trágica, com a qual até as comunidades cristãs foram obrigadas a se acostumar, como disse o Decano ao nosso jornal: “A Igreja está sofrendo em primeira mão; muitos cristãos foram assassinados e sequestrados; igrejas foram incendiadas e aldeias, conhecidas por serem de maioria cristãs, foram atacadas, causando muitas vítimas”.
Nos últimos três meses, no Estado de Kaduna, onde o sacerdote vive, vários ataques às comunidades paroquiais de Kurmin Dangana causaram nove mortes e 25 sequestros.
Esta situação insustentável levou o chanceler da arquidiocese de Kaduna, Padre Christian Okewu Emmanuel, a denunciar — em uma carta endereçada ao Secretário-geral católico de Abuja — a crescente onda de violência e a pedir “intervenção imediata do Governo central para intensificar os esforços pela proteção das vidas e propriedades nas áreas assediadas”.
Deslocamento em aumento
O Estado de Kaduna, como os das regiões do norte e do centro, é o epicentro das atividades de bandidos, que o governo federal rotulou, indiscriminadamente, como terroristas desde 2022, como afirma o Padre Ghado: “As aldeias visadas pelos grupos armados tornaram-se lugares fantasmas”.
O sacerdote destaca também o aumento dos deslocados internos: “Muitos dos moradores, que conseguiram fugir, encontraram abrigo em alguns acampamentos, enquanto as paróquias danificadas não são mais acessíveis aos seus pastores, o que dificulta os cuidados pastorais”.
Todavia, a onda de violência que assola o país não afeta apenas os cristãos, como o religioso explica ainda: “No Nordeste, onde os Estados são de maioria muçulmana, as ações terroristas não pouparam ninguém. As vítimas deles não são baseadas, necessariamente, na religião. O que importa para eles é o dinheiro, que podem ganhar com os resgates”.
Ilegalidade difundida
A escalada das atividades criminosas deve-se, segundo o Decano, à falta de vontade das autoridades governamentais de erradicar concretamente a anarquia e à incapacidade de impedir que atores não estatais façam justiça com as próprias mãos.
No entanto, no parecer do religioso, há ainda outro problema: “A falta de presença do governo naqueles lugares, que poderiam ser definidos como ‘áreas indetermináveis’, porções de território desprovidas de pessoal de segurança, que tornam o terreno fértil para todos os tipos de atividades terroristas”.
Igreja na linha de frente
O Padre Augustine Ghado reitera, enfim, que a Igreja local não deixa de ser “a voz dos que não têm voz”: “A Conferência Episcopal continua a agir como uma sentinela para falar à consciência da nação; ela solicita, constantemente, às autoridades a terem consciência de suas responsabilidades, por meio de reuniões ou de publicações de comunicados”.
Os mais recentes deles, ano passado, foram talvez os mais duros. Após o massacre no Estado de Benue, em junho de 2025, que custou a vida de mais de cem pessoas, os Bispos emitiram uma declaração oficial, onde denunciam: “Consideramos este ato bárbaro como uma falência moral e constitucional. Por isso, pedimos uma intervenção urgente, por parte das autoridades federais, o reforço da segurança nas áreas rurais e a proteção das comunidades camponesas, atacadas por gangues armadas e milícias”.
O post Nigéria: "As pessoas vivem com medo, de norte a sul", diz sacerdote apareceu primeiro em Notícias.






