Padre sobre IA: tecnologia deve servir à pessoa; ninguém é descartável

  • 21/07/2026

Na segunda reportagem da série sobre a Magnifica humanitas, padre Altair explica como a Doutrina Social da Igreja orienta o uso da inteligência artificial

Julia Beck
Da Redação

Mão robótica estendida em direção à mão de uma pessoa, simbolizando a relação entre tecnologia, inteligência artificial e ser humano, sobre fundo neutro.

Tecnologia e ser humano / Foto: Canva

A dignidade da pessoa humana é o fundamento para refletir sobre o desenvolvimento e o uso da inteligência artificial. Essa é uma das principais mensagens do segundo capítulo da encíclica Magnifica humanitas, publicada pelo Papa Leão XIV em maio deste ano.

Segundo o padre Altair Manieri, o Santo Padre escolheu a dignidade humana como ponto de partida porque ela é o fundamento de toda a ordem social. “A dignidade não é algo que se conquista ou se merece, mas é inerente ao ser humano por ter sido criado à imagem de Deus”, explica.

Nesse contexto, o sacerdote ressalta que a inteligência artificial deve permanecer sempre a serviço da pessoa. Ele frisa que a encíclica faz um alerta importante sobre o risco de uma sociedade marcada pela chamada “ideologia da eficiência”, na qual o valor das pessoas passa a ser medido apenas pelo desempenho e pela produtividade.

“O ser humano corre o risco de ser reduzido a um meio para atingir resultados ou a um recurso a ser explorado. O Papa recorda que cada pessoa é um fim em si mesma e que sua dignidade permanece intacta, independentemente de qualquer limitação ou incapacidade produtiva”, afirma.

Critérios para discernir o uso da IA

O segundo capítulo da Magnifica humanitas também retoma os cinco princípios da Doutrina Social da Igreja — bem comum, destinação universal dos bens, subsidiariedade, solidariedade e justiça social — como critérios para avaliar se a inteligência artificial está, de fato, promovendo o bem da humanidade. Padre Altair destaca que esses princípios oferecem parâmetros concretos para discernir os impactos das novas tecnologias.

Sobre o bem comum, o presbítero explica que o desenvolvimento da inteligência artificial não pode beneficiar apenas interesses econômicos ou empresariais, mas deve produzir frutos para toda a sociedade.

Ao tratar da destinação universal dos bens, o sacerdote observa que a encíclica amplia esse princípio para o ambiente digital. “O Papa fala também dos bens imateriais, como os dados e os algoritmos. Eles não podem ficar concentrados nas mãos de poucos, mas seus benefícios precisam alcançar toda a humanidade”, comenta.

Em relação à subsidiariedade, padre Altair afirma que a encíclica defende maior transparência no funcionamento das plataformas digitais, além da participação das comunidades e da realização de auditorias independentes sobre os sistemas de inteligência artificial.

Já os princípios da solidariedade e da justiça social, explica o sacerdote, ajudam a verificar se a tecnologia está sendo utilizada para cuidar das pessoas, sobretudo das mais vulneráveis, ou se está reforçando preconceitos, ampliando desigualdades e criando novas formas de exclusão.

Concentração de poder

Outro ponto abordado pelo Papa Leão XIV é a crescente concentração de dados e algoritmos nas mãos de poucas empresas, realidade que, segundo o documento, produz novos desequilíbrios econômicos e sociais.

Para padre Altair, esse cenário exige uma reflexão ética profunda. “O problema não está apenas na tecnologia, mas na concentração do poder. Quando poucos grupos controlam os dados, as informações e as oportunidades, corre-se o risco de comprometer o bem comum e a própria autonomia das comunidades”, ressalta.

Segundo ele, a contribuição da Doutrina Social da Igreja consiste em recordar que o desenvolvimento tecnológico deve estar submetido a regras justas e ao acompanhamento da sociedade.

“O Papa propõe compreender o ecossistema digital como um bem comum. Isso significa que ele não pode ser administrado apenas pela lógica do lucro, mas deve ser orientado pela dignidade da pessoa humana e pelo bem-estar dos povos”, sublinha.

Desenvolvimento humano integral

A encíclica também diferencia o simples avanço tecnológico do verdadeiro desenvolvimento humano. De acordo com padre Altair, Leão XIV frisa que uma inovação só representa progresso quando promove “todos os homens e o homem todo”, expressão utilizada pela Doutrina Social da Igreja para indicar um desenvolvimento que contempla as dimensões material, espiritual, cultural, social e relacional da pessoa.

“Nem todo avanço tecnológico significa progresso humano. A inteligência artificial precisa reduzir desigualdades, fortalecer a liberdade e a responsabilidade das pessoas e caminhar junto com o cuidado da Casa Comum”, ressalta.

Tecnologia a serviço da fraternidade

Ao concluir o segundo capítulo da Magnifica humanitas, o Papa convida a humanidade a escolher um caminho de responsabilidade compartilhada diante das novas tecnologias. Para padre Altair, essa é a grande síntese da mensagem deixada pelo Pontífice.

“A Igreja afirma que a tecnologia não é neutra. Ela precisa ser orientada por critérios éticos e pelo discernimento, para que permaneça sempre a serviço da pessoa humana”, enfatiza.

Segundo o sacerdote, o caminho proposto pela encíclica passa pela construção de uma cultura do encontro, pela regulamentação das novas tecnologias e pelo diálogo entre os diversos setores da sociedade.

“A principal mensagem é que a inteligência artificial deve ter o rosto da fraternidade. O futuro não pode ser decidido apenas pela técnica, mas por escolhas que coloquem a dignidade humana no centro e garantam que ninguém seja considerado descartável”, conclui.

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FONTE: https://noticias.cancaonova.com/igreja/padre-sobre-ia-tecnologia-deve-servir-a-pessoa-ninguem-e-descartavel/


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