Papa à FAO: “pão jamais deve ser usado como arma de guerra”

  • 16/10/2026

No Dia Mundial da Alimentação, Leão XIV defende nova ordem alimentar global e reforça a alimentação como direito humano fundamental

Da Redação, com Vatican News

Palestinos, entre adultos e crianças, estendem recipientes em busca de alimentos durante distribuição de ajuda humanitária na Faixa de Gaza.

Palestinos deslocados recebem alimentos em Khan Yunis, Gaza, em meio à escassez provocada pelos ataques e pelas restrições impostas por Israel à região, em 15 de setembro de 2026 /Foto: Abed Rahim Khatib/ Anadolu via Reuters

O Papa Leão XIV fez um apelo por uma nova ordem alimentar global e afirmou que o pão jamais deve ser usado como arma de guerra. A afirmação está em uma mensagem enviada à Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), por ocasião do Fórum Mundial da Alimentação (WFF), e lida nesta sexta-feira, 16, durante a cerimônia oficial do Dia Mundial da Alimentação, na sede da organização, em Roma.

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Dirigido ao diretor-geral da FAO, Qu Dongyu, o texto foi assinado pelo Pontífice em 12 de outubro, um dia antes de sua internação no Hospital Gemelli para a cirurgia de remoção de um adenocarcinoma pulmonar, um tipo de câncer. A mensagem foi lida pelo arcebispo Fernando Chica Arellano, observador permanente da Santa Sé junto à FAO.

Realizado de 8 a 16 de outubro, o Fórum Mundial da Alimentação busca impulsionar ações para a transformação dos sistemas agroalimentares, com o objetivo de contribuir para garantir a todos o acesso à alimentação.

A verdadeira inovação

“Encontramo-nos atualmente em uma situação paradoxal, na qual o progresso global avança a um ritmo cada vez mais acelerado, enquanto a fome e a pobreza continuam a persistir. Não se trata de um problema técnico ou financeiro, mas sim de uma profunda crise antropológica e ética”, escreveu o Pontífice no início da mensagem.

Ao refletir sobre o conceito de “inovação”, presente no tema da jornada deste ano — “Inovar hoje para nutrir o amanhã” —, Leão XIV alertou para que a humanidade não se limite à otimização da técnica, com o desenvolvimento de dispositivos e algoritmos voltados unicamente ao lucro econômico, mas procure cuidar e cultivar a terra. “A verdadeira inovação não substitui a criação, mas implica uma investigação respeitosa das leis complexas que orientam a obra das mãos do Criador”, afirmou.

Ser “colaborador de Deus na obra da criação”, prosseguiu o Papa, significa também proteger a dignidade humana e fazer uso adequado da tecnologia. Práticas como privar o solo de sua fertilidade natural, afastar o agricultor de sua terra por razões econômicas ou utilizar irresponsavelmente a tecnologia em benefício de interesses exclusivamente egoístas violam, segundo o Pontífice, o princípio da solidariedade e o dever de salvaguardar a criação. Tais práticas, ressaltou, não podem “ser consideradas um progresso, mas uma forma sofisticada de destruição”.

O Pontífice acrescentou que a inovação de que o mundo necessita não pode ser medida apenas pela quantidade de grãos produzidos e negociados no mercado. Leão XIV alertou também para a concentração das sementes nas mãos de monopólios, que sufocam a agricultura de pequena escala, enquanto a distribuição dos alimentos é negligenciada.

Alimentação é um direito humano fundamental

Na mensagem, o Papa destacou que a persistência da fome não pode ser tratada simplesmente como uma questão estatística e apontou a falta de vontade política e de solidariedade coletiva entre suas principais causas.

“A fome não pode ser considerada uma anomalia estatística, pois é causada principalmente pela falta de vontade política e de solidariedade coletiva. Nem a escassez de alimentos é geograficamente inevitável. De fato, em uma época caracterizada por um progresso tecnológico sem precedentes, é intolerável que o pão seja considerado um privilégio e a água, uma mercadoria disputada”, frisou.

O Santo Padre reforçou que o acesso regular a uma alimentação segura, adequada e suficiente, em consonância com a dignidade de cada pessoa, constitui um direito humano fundamental. Garantir esse direito, acrescenta, é uma obrigação de justiça que compromete tanto os Estados individualmente quanto a comunidade internacional.

Pão não pode ser arma de guerra

Para assegurar esse direito, o Papa defendeu que a produção de alimentos seja libertada de uma “mentalidade puramente especulativa”. “O pão não deveria ser nem um instrumento de pressão geopolítica nem um bem financeiro volátil. Tampouco deve jamais ser usado como arma de guerra”, afirmou.

O Pontífice recordou ainda que “o mito de que o crescimento pode ser infinito, apesar dos recursos limitados, chegou ao seu limite”. Por isso, a inovação exige hoje, segundo Leão XIV, “responsabilidade intergeracional”, conciliando o avanço tecnológico com a sabedoria daqueles que cultivam a terra. Nesse contexto, destacou também a necessidade de proteger a água como “bem comum inalienável”.

“Chegou a hora de dar prova de ousadia moral”

Antes de abençoar os participantes do Fórum Mundial da Alimentação e assegurar “o apoio constante da Santa Sé às iniciativas que auxiliam a FAO em seus nobres esforços”, o Santo Padre encorajou a organização e seus Estados-membros a não se contentarem com “análises abstratas ou declarações de eficácia limitada”.

“Chegou a hora de dar prova de ousadia moral. É essencial uma nova ordem alimentar global, na qual a inovação tecnológica esteja incondicionalmente subordinada ao respeito pela dignidade humana doada por Deus e ao bem comum universal”, enfatizou. O Papa sublinhou ainda a existência de um “imperativo ético urgente” de redirecionar os recursos investidos na indústria bélica para a pesquisa agrícola sustentável e a regeneração de solos degradados.

Ao concluir, Leão XIV reforçou que as decisões tomadas no presente determinarão o futuro da humanidade: “O amanhã não é um período de tempo abstrato que nos aguarda passivamente; é, antes, a colheita do que semeamos hoje através das nossas decisões. Se semearmos uma inovação não ética, baseada no desejo de dominar a terra e excluir os fracos, colheremos aridez e conflitos. Se, ao contrário, a inovação brotar do respeito pela ordem natural e da justiça para com aqueles que passam fome, o amanhã trará uma mesa farta para o sustento da humanidade.”

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FONTE: https://noticias.cancaonova.com/especiais/pontificado/leao-xiv/papa-a-fao-pao-jamais-deve-ser-usado-como-arma-de-guerra/


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