Papa conclui Consistório: Igreja deve escutar, dialogar e gerar esperança

  • 28/06/2026

Em discurso de conclusão, Pontífice reforça a esperança, destaca a sinodalidade como caminho para a Igreja e anuncia um novo Consistório até o fim do ano

Da Redação, com Vatican News

Papa Leão XIV na sessão de encerramento do Consistório extraordinário no Vaticano, sentado à mesa principal diante dos cardeais reunidos na Sala do Sínodo. Ao fundo, um telão exibe a imagem do Pontífice durante seu discurso.

Papa Leão XIV encerra o Consistório extraordinário com cardeais reunidos no Vaticano /Foto: Reprodução Reuters

Ao final deste sábado, 27, o Papa Leão XIV encerrou o Consistório Extraordinário, iniciado na sexta-feira, 26. O encontro com os cardeais terminou com esperança renovada. “Estes dias fortalecem minha esperança. Não apenas pelo que compartilhamos, mas pela maneira como o fizemos. Em uma época marcada pela polarização, até mesmo a maneira como a Igreja escuta e dialoga torna-se parte de seu anúncio”, afirmou o Santo Padre.

Antes das considerações finais, o Pontífice dirigiu seu pensamento aos venezuelanos, assegurando orações pelas vítimas, seus familiares e por todos os afetados pelos terremotos que atingiram o país na última quarta-feira, 24. Também confiou ao Senhor aqueles que atuam nos trabalhos de socorro e pediu a solidariedade da comunidade internacional.

“Desejo expressar a nossa solidariedade — minha e de todo o Colégio Cardinalício — à população da Venezuela, duramente atingida pelo violento terremoto dos últimos dias”, declarou.

Quarta sessão

Na tarde deste sábado, Leão XIV e os purpurados participaram da quarta e última sessão do Consistório, dedicada à implementação da sinodalidade na Igreja. Em sua exposição, o Cardeal Mario Grech destacou que o processo sinodal ampliou a participação das diversas realidades eclesiais desde 2021, fortalecendo a cultura da escuta, do discernimento e da corresponsabilidade.

Nos debates, os participantes defenderam o aprofundamento da vivência sinodal, a promoção de um modelo de sacerdócio evangélico e não clerical, ressaltaram a contribuição das Igrejas Orientais e alertaram para o desafio de conciliar os processos de consulta com a missão evangelizadora da Igreja.

Sinodalidade, um estilo espiritual

Ao retomar o tema, o Papa afirmou que a questão central da sinodalidade não é quem detém o poder de decisão, mas como toda a Igreja pode guardar, em conjunto, o dom confiado por Cristo.

“Quando essa pergunta se torna o centro do nosso discernimento, também as questões da autoridade, da corresponsabilidade e das decisões encontram seu devido lugar”, disse, confiando novamente aos cardeais a missão de conduzir a implementação do Sínodo nas Igrejas particulares.

Na conclusão do Consistório, citando a reflexão do Cardeal Grech, Leão XIV reiterou que a sinodalidade não é um conjunto de reuniões nem um método de trabalho. “É um estilo espiritual”, em que prevalece a qualidade evangélica dos encontros, e não sua quantidade.

Cardeais reunidos, motivo de esperança

O Santo Padre agradeceu aos cardeais pelos dois dias de trabalho e destacou a gratidão “pela liberdade, pela fraternidade e pelo espírito eclesial” com que participaram das reflexões.

“Levo comigo não apenas o conteúdo de suas reflexões, mas também a experiência que as tornou possíveis (…). Ver cardeais provenientes de Igrejas, culturas e situações tão diversas ouvindo-se mutuamente e buscando juntos o que melhor serve ao Evangelho foi para mim motivo de consolo e de esperança”, ressaltou.

Se a imagem do Bom Samaritano guiou a abertura do encontro, Leão XIV concluiu evocando os discípulos de Emaús: “Caminhamos juntos, ouvimos uns aos outros e, se deixamos espaço para o Senhor, Ele reacendeu a esperança em nossos corações e agora nos remete às nossas Igrejas para retomarmos a caminhada com um olhar renovado”.

Feridas do mundo

O Papa também retomou os principais temas debatidos, como guerras, violência, pobreza e injustiças. Segundo ele, por trás desses dramas há um sofrimento ainda mais profundo: a solidão, a crise das relações, a perda da esperança e a dificuldade de reconhecer o outro como irmão, realidade que afeta especialmente jovens e famílias.

Nesse contexto, recordou o encontro previsto para outubro com os líderes das Igrejas Orientais e os presidentes das Conferências Episcopais para avaliar os frutos da Amoris laetitia, com a participação de famílias que compartilharão suas experiências.

Segundo Leão XIV, essas feridas revelam o coração humano: “É justamente ali, no coração, que se decide também a paz. Antes de se manifestar na história, a guerra nasce dentro de nós, quando a desconfiança toma o lugar da confiança, o medo, da esperança, e o outro é percebido como uma ameaça. Mas é nesse mesmo coração que Cristo continua a nos encontrar, a falar conosco e a nos converter. De um coração reconciliado podem nascer palavras desarmadas, novas relações e uma paz capaz de alcançar até mesmo os povos”.

Não violência e legítima defesa

O Pontífice manifestou satisfação pelas reflexões sobre a Encíclica Magnifica humanitas, que alerta para a cultura do poder presente na economia, na tecnologia, na religião e nas relações humanas.

Também destacou a necessidade de reconstruir a cultura da cooperação, do diálogo — inclusive ecumênico e inter-religioso — e de fortalecer o multilateralismo. Nesse contexto, definiu como “valiosa” a reflexão dos cardeais sobre a não violência.

“Trata-se de uma forma profundamente evangélica de viver a história, fruto da contemplação da maneira de agir de Jesus. Não consiste em renunciar ao conflito nem em adotar uma atitude passiva, mas em optar por enfrentá-lo sem reproduzir sua lógica. (…) Essa é a força do Crucificado ressuscitado: uma força que não destrói o inimigo, mas torna possível reencontrar um irmão.”

Nessa perspectiva, Leão XIV defendeu o aprofundamento do tema da legítima defesa, com o necessário rigor teológico e pastoral.

A Igreja é chamada a tornar-se aquilo que proclama

A Doutrina Social da Igreja e o bem comum também estiveram entre os temas abordados, assim como a importância do testemunho, da proximidade, da formação das consciências e da construção de comunidades fraternas e confiáveis. “A Igreja é chamada a tornar-se cada vez mais aquilo que proclama”, afirmou, destacando a necessidade de reformas nas estruturas, instituições e processos.

O Papa ressaltou ainda que o Consistório não foi um “parlamento” nem um “congresso”, onde prevalecem interesses ou opiniões, “mas uma experiência de comunhão a serviço da missão”. Anunciou ainda que, até o fim do ano, divulgará a data de um novo Consistório.

“Este Consistório foi um momento precioso, mas não deve permanecer um evento isolado”, afirmou. Segundo ele, ouvir, rezar, discernir e caminhar juntos constituem a essência da implementação do Sínodo e deverão inspirar também o próximo encontro dedicado à Amoris laetitia e outras iniciativas futuras. “O que importa não é multiplicar os encontros, mas aprender a viver encontros nos quais, ao nos ouvirmos mutuamente, aprendamos juntos a ouvir o Senhor.”

A violência não terá a última palavra

Ao concluir, Leão XIV voltou a fazer um apelo pela paz, tema recorrente ao longo do Consistório. “Deus deseja a paz para cada nação e para cada povo. Por isso, não devemos nos resignar à violência. A violência não terá a última palavra. Deus continua a abrir, na história, caminhos de reconciliação e de paz. Temos a responsabilidade de trilhá-los com coragem e de ajudar o mundo a reconhecê-los.”

O Pontífice encerrou agradecendo “de todo o coração” a contribuição dos cardeais: “Obrigado por me ajudarem, mais uma vez, a reconhecer a obra que Cristo continua a realizar no meio de seu povo e no mundo. Confiemos os frutos deste Consistório à intercessão da Virgem Maria, Mãe da Igreja. Que ela nos ensine a preservar a unidade na diversidade e a servir o Evangelho da paz com humildade, coragem e esperança”.

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FONTE: https://noticias.cancaonova.com/especiais/pontificado/leao-xiv/papa-conclui-consistorio-igreja-deve-escutar-dialogar-e-gerar-esperanca/


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