Papa em Lampedusa é um aceno aos migrantes na Europa, afirma bispo

  • 03/07/2026

Dom Alessandro Damiano, arcebispo de Agrigento, descreve a expectativa pela chegada de Leão XIV neste sábado, 4, a um local simbólico da tragédia migratória

Da redação, com Vatican News

Monumento “Portal para a Europa”, em Lampedusa / Foto: Vito Manzari via Wikimedia Commons

Um “percurso espiritual” que começa com a “comunhão com os mortos no mar e com os sobreviventes”, ou seja, a visita ao cemitério, prossegue na “Porta da Europa” e no Cais Favarolo para o encontro com uma delegação de migrantes, e termina com a “comunhão com uma Igreja viva”, a celebração eucarística no estádio local, onde estará presente toda a comunidade. É assim que dom Alessandro Damiano, arcebispo metropolitano de Agrigento, descreve a visita do Papa Leão XIV a Lampedusa, sul da Itália, neste sábado, 4 de julho. Uma visita breve, mas significativa, à ilha que ainda se lembra da histórica visita do Papa Francisco em 2013, a partir da qual o Pontífice lançará uma mensagem “não gritada, mas vivida” à Itália e à Europa.

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Uma visita que fecha o ciclo iniciado com a viagem de junho às Ilhas Canárias, onde Leão dirigiu seu apelo contra os traficantes, afirmando: “convertam-se!”. “Um apelo que, para nós, agrigentinos, nos lembra aquele de João Paulo II aos mafiosos”.

Vatican News — Excelência, o que o Papa Leão verá, o que encontrará ao chegar à ilha de Lampedusa?
Dom Damiano — Bem, ele encontrará uma ilha cheia de turistas, por enquanto, mas certamente não está lá por isso. Ele encontrará uma ilha em espera que relembra a visita do Papa Francisco, a primeira visita apostólica que Francisco fez justamente a Lampedusa, uma lembrança muito viva. E isso faz sentir a proximidade, a proximidade concreta, simples, da Igreja neste pedaço de terra, nesta comunidade, com atenção aos povos em movimento, aos migrantes. É isso mesmo, o Papa encontrará essa expectativa. A visita, como vocês sabem, é breve e tem um itinerário que é logístico, mas também é um percurso espiritual pela forma como foi estruturada. Pois o Santo Padre, ao chegar ao aeroporto, segue imediatamente para o cemitério, de forma privada, para um momento de reflexão pessoal diante dos túmulos de alguns migrantes. A parada será feita onde repousa o pequeno Yusuf, uma criança que foi enterrada ali, junto com outras. E é aquele carinho que os mortos no mar não recebem. Portanto, essa comunhão com aqueles que deixaram a vida terrena para entrar na vida eterna. Não percamos de vista esse aspecto.

Vatican News — O que mudou desde a visita do Papa Francisco até hoje no cenário de Lampedusa?
Dom  Damiano — Desde a visita do Papa Francisco, na verdade, não mudou muita coisa, porque os desembarques continuam ocorrendo: mais frequentes, menos frequentes, dependendo das condições climáticas, mas ainda mais dependendo das partidas que, de alguma forma, são impedidas, facilitadas ou permitidas nas costas do Norte da África. Lá seria necessário fazer uma reflexão de caráter mais político sobre esses deslocamentos… O que mudou no momento do desembarque? Antes, sobretudo antes da visita do Papa Francisco, os desembarques e os resgates por parte dos pescadores eram mais frequentes. Agora, o resgate de vidas ocorre essencialmente por meio da Guarda Costeira e da Guarda Financeira, que atuam diretamente no mar. Antes havia mais proximidade com a comunidade local em relação aos migrantes que, no início, eram acolhidos nas casas, recebiam ajuda para encontrar roupas secas, eram alimentados… Alguns tinham até a possibilidade de fazer uma higiene pessoal para tirar a água do mar ou, infelizmente, os vestígios de combustível, o que é terrível. Tudo isso já não existe há anos, porque, assim que o mecanismo dos diversos governos entrou em ação — e isso é algo positivo em certos aspectos —, a situação passou a ser assumida pelas forças presentes na ilha, que são muitas. Talvez devêssemos usar essa palavra com cautela, mas o desembarque é bastante “militarizado”, sob o controle das forças de segurança e de suas diversas vertentes.

Vatican News — E a Igreja, por sua vez, o que faz nesse contexto?
Dom Damiano — Nesse contexto, a Igreja, a comunidade de Lampedusa e alguns representantes de ONGs presentes ali no famoso — ou infame — Cais Favarolo tentam “humanizar” o desembarque, na medida do possível enquanto permanecem no cais, pois mesmo isso está mudando aos poucos e fica cada vez mais difícil para os voluntários permanecerem no local. São pequenos gestos que talvez pareçam banais. Ou seja, o que você faz? Você dá, por exemplo, uma garrafinha de água, um copo de chá quente… mas olha nos olhos. Na minha opinião, o mais importante é olhar nos olhos desses homens, dessas mulheres, dessas crianças.

Vatican News — E isso não é algo óbvio em um momento em que, no âmbito político, fala-se em remigração. O que o senhor acha disso?
Dom Damiano — Acho que a remigração vai contra o Evangelho, mas o Papa já disse isso. É uma lógica cada vez mais restritiva. É o ponto de vista que muda, porque a perspectiva com que os governos da Itália e do resto da Europa encaram os migrantes é uma perspectiva de segurança, mas o ponto de vista que preserva a humanidade, a dignidade humana e também o que há de humano em nós certamente não pode ser esse. Mas sim o das palavras do Evangelho, onde encontramos as palavras certas: “eu era estrangeiro e vocês me acolheram, pelo menos me deram abrigo, não me deixaram morrer”. Isso não é pouca coisa.

Vatican News — Que sinal transmite, na sua opinião, essa visita do Papa que, aliás, ocorre poucas semanas depois daquela às Ilhas Canárias e a Tenerife, outro palco da tragédia migratória?
Dom Damiano — É interessante. O Papa foi às Ilhas Canárias e usou essa expressão: “parem, convertam-se”. Na região de Agrigento, essa palavra “convertam-se” remete inevitavelmente — pois está muito recente na memória de todos — ao grito de João Paulo II no Vale dos Templos: “Digo a vocês, homens da máfia, convertam-se, pois um dia virá o julgamento de Deus”. Depois, passamos do “parem e convertam-se” — justamente no que diz respeito aos migrantes — para outro pequeno parêntese, pequeno mas significativo, com a visita do Santo Padre a Pavia, onde fez uma parada na casa da Madre Cabrini. E quem é a Madre Cabrini? Nós sabemos… (é a padroeira dos migrantes, nota do editor). Foi justamente à Madre Cabrini que Leão XIII disse que ela deveria ir em missão não para o Oriente, mas para o Ocidente. E essa passagem realmente amplia a visão das migrações, dos povos em movimento do Oriente para o Ocidente. Agora, parece-me quase que um pequeno círculo se fecha em Lampedusa. As migrações dizem respeito ao mundo inteiro e aqui tudo se concentra, em um lugar simbólico para o Mediterrâneo. Acredito que seja uma mensagem formidável. Não gritada, mas vivida, compartilhada e, por isso, talvez, mais incisiva. Pois quem grita, grita, mas não alcança as consciências e não toca o coração.

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FONTE: https://noticias.cancaonova.com/especiais/pontificado/leao-xiv/papa-em-lampedusa-e-um-aceno-aos-migrantes-na-europa-afirma-bispo/


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