Papa leva respostas de fé a jovens em vigília de oração em Barcelona
- 09/06/2026
Leão XIV participou de uma vigília de oração com cerca de 40 mil pessoas como parte da programação de sua visita à capital da Catalunha
Jéssica Marçal
Da Redação

O Papa Leão XIV acompanha os testemunhos e perguntas dos jovens / Foto: Reprodução Vatican Media
O Papa Leão XIV foi calorosamente recebido por cerca de 40 mil pessoas no Estádio Olímpico Lluís Companys, em Barcelona, para uma vigília de oração nesta terça-feira, 9, seu primeiro dia na cidade espanhola. Esta é a segunda etapa da viagem apostólica à Espanha, iniciada no último dia 6.
Na chegada ao Estádio, antes do tradicional giro de papamóvel, o Papa abençoou cerca de 30 ambulâncias. Já no local, foi acolhido com a formação da tradicional torre humana catalã – castellers. Após a saudação do arcebispo de Barcelona, Cardeal Juan José Omella Omella, os presentes acolheram a entrada da Cruz de Jesus. A vigília foi marcada, então, por um momento de diálogo do Papa com os jovens. Três deles fizeram, cada um, uma pergunta e receberam como resposta uma reflexão do Pontífice.
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Na primeira pergunta, um jovem que recebeu o Batismo na Páscoa deste ano perguntou ao Papa como ter o olhar sempre voltado para o que realmente importa enquanto a sociedade impele a olhar sempre para baixo ou para si mesmo.
Leão XIV respondeu dizendo que o desejo de verdade e de felicidade precisa de um horizonte mais amplo. É uma inquietude que é dom do próprio Deus: a cada passo, a cada conquista, mesmo que haja satisfação, há também o impulso a seguir adiante e continuar buscando.
Segundo o Papa, é necessário cultivar esta saudável inquietação. Refletir sobre a própria vida deixando-se iluminar pelo Evangelho leva a um senso crítico diante de um sistema social que não coloca a pessoa no centro e provoca situações de injustiça e de pobreza existencial. “Eis porque a inquietação assusta, assim como a descoberta da interioridade, da espiritualidade e ainda mais do Evangelho”.
Mas é preciso cultivar essa inquietação e dar espaço a ela, ressaltou o Papa, sem deixar-se dominar pelos ritmos e seduções externas. É preciso, reforçou, cultivar “momentos de silêncio, talvez parando por alguns minutos por dia para ler o Evangelho e falar com Deus, e também tentando percorrer esse caminho interior junto com outros”.
A depressão: como confiar em Deus quando nada parece valer a pena?
Uma segunda pergunta abordou a problemática da depressão e foi feita por uma jovem que sofreu com esta doença e chegou a atentar contra a própria vida. Deus lhe deu uma segunda chance, disse ela agradecida, mas muitos ainda enfrentam esses momentos de escuridão.
“Antes de tudo, obrigada por partilhar hoje a sua experiência de sofrimento”, disse o Papa comovido com a força que ela teve de acolher esta segunda chance e retomar a caminhada. Em seguida, alertou sobre como a saúde mental está sempre mais ameaçada no contexto de sociedades que se consideram avançadas. “É um sinal de que há algo profundamente errado com uma certa ideia de crescimento que sujeita as pessoas a pressões, expectativas e tensões que comprometem os equilíbrios fundamentais.”
Ao ouvir a pergunta da jovem, o Papa pensou nos momentos de escuridão pelos quais Jesus passou quando se aproximava a hora de sua morte. Não se trata somente de um sofrimento pessoal: o Filho de Deus assumiu toda a angústia e sofrimento da humanidade. E esta cruz de Jesus nos diz que Deus nunca nos abandona, mas permanece crucificado junto à dor e à solidão extrema.
Mas para além de confiar a Deus essas dores, Leão XIV ressaltou a importância de, na medida do possível, se abrir com alguém que possa ajudar a expressar uma oração simples, alguém que acompanhe discretamente, que possa dar a mão e ajudar.
“Essas experiências oferecem uma mensagem também a nós fiéis, a toda a Igreja: não devemos espiritualizar a dor, atribuindo-a superficialmente à ‘vontade de Deus’ ou a algum plano misterioso Dele, pois isso corre o risco de minimizar esse sofrimento, silenciá-lo e ferir as pessoas. Deus não quer o sofrimento; Ele o traz conosco e nos convida a confiar Nele com perseverança. Lembremo-nos do que dizia o Papa Francisco: com Deus, a vida sempre renasce.”
Como perdoar verdadeiramente?

O abraço do Papa à jovem que testemunhou a realidade do perdão / Foto: Reprodução Vatican Media
Uma terceira jovem apresentou ao Papa seu testemunho de uma infância difícil, em que o próprio pai tentou matar a mãe. O pai foi preso, a mãe acabou caindo no mundo das drogas e ela ficou sob custódia do serviço social. Esta jovem teve uma adolescência revoltada com Deus, mas após um retiro teve um encontro com Seu amor. Porém, ela ainda tem dificuldade de perdoar seu pai. “Como posso reconciliar-me verdadeiramente com Deus”, indagou ela ao Papa.
Diante do testemunho da jovem, o Papa ressaltou dois pontos, e o primeiro foi a necessidade de ampliar o raio da pergunta que se costuma fazer nestas situações: em vez de perguntar “onde estava Deus”, é preciso perguntar sobre a própria humanidade, tantas vezes prisioneira do mal a ponto de não conseguir respeitar no outro sua dignidade e liberdade.
“Não podemos atribuir a Deus o que foi confiado à nossa responsabilidade; não podemos imaginar que Deus do alto responda automaticamente às nossas necessidades ou impeça milagrosamente que o mal aconteça (…) Se a violência existe, se o egoísmo triunfa, se até o amor entre familiares se transforma em ódio, devemos nos questionar sobre nós mesmos, sobre a dinâmica da nossa sociedade, sobre a cultura do individualismo, sobre a tentação da violência, e não sobre Deus.”
Em um segundo ponto, Leão XIV abordou o perdão: a necessidade de considerá-lo como parte de um processo, de um caminho. “Acima de tudo, devemos invocar o perdão do Senhor; devemos continuar a pedir — talvez ao longo de toda a nossa vida — que o Senhor expanda em nós o espaço do amor precisamente lá onde fomos feridos, que nos ajude a reconciliarmo-nos conosco próprios e com essa parte da nossa história marcada pelo sofrimento, que transforme lentamente o ressentimento em misericórdia e compaixão. É uma longa jornada, um processo que exige muita paciência, é um trabalho que devemos fazer em nós mesmos, tanto pessoalmente como através de outros caminhos de orientação e reconciliação interior.”
Após o momento de diálogo, houve a leitura do Evangelho, seguida de uma homilia do Papa. Ao término da cerimônia, Leão XIV retorna para a casa arquiepiscopal. A programação da viagem continua nesta quarta-feira, 10.
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