Papa: “Mesmo ferida, uma família pode crescer a partir do amor”
- 14/10/2026
Homilia preparada por Leão XIV foi lida pelo Cardeal Tagle, que presidiu a missa do 10° aniversário da publicação da Exortação Apostólica Amoris laetitia
Da Redação, com Vatican News

Cardeal Tagle preside Missa na Praça São Pedro pelos 10 anos da Amoris laetitia /Fotos: REUTERS/Stoyan Nenov
O decano do Colégio Cardinalício, Cardeal Luis Antonio Tagle, presidiu, na manhã desta quarta-feira, 14, na Praça São Pedro, a Missa por ocasião do 10º aniversário da Exortação Apostólica Amoris laetitia. O Papa Leão XIV, que presidiria a celebração, está internado no Hospital Policlínico Agostino Gemelli desde terça-feira, 13, onde foi submetido a uma cirurgia para a remoção total de um adenocarcinoma pulmonar.
A homilia preparada pelo Pontífice foi lida pelo Cardeal Tagle. No texto, Leão XIV iniciou a reflexão retomando a frase que abre a Exortação Apostólica do Papa Francisco: “A alegria do amor que se vive nas famílias é também o júbilo da Igreja”. “Celebramos, hoje, a Eucaristia apresentando ao Senhor os frutos do trabalho que, durante este período, foi realizado sobre o Documento, procurando assimilar a sua riqueza e pôr em prática as suas orientações pastorais”, afirmou.
Amor como fundamento das famílias
Ao recordar o quarto capítulo da Amoris laetitia, Leão XIV destacou o “hino à caridade” de São Paulo, colocado “na base de uma rica meditação sobre as virtudes do matrimônio cristão, uma união ‘afetiva, espiritual e oblativa’, ícone do amor de Deus”. “A verdadeira alegria do amor é uma lenta fusão, na qual a peculiaridade de cada um floresce, na doação, através da presença do outro”, acrescentou.
Segundo o Papa, é essa caridade que a Amoris laetitia convida a colocar como fundamento das famílias. O amor verdadeiro, observou, deve orientar também a formação dos jovens que se preparam para o matrimônio, ensinando-lhes “a importância das virtudes”, entre as quais ocupa lugar especial a castidade, apresentada como “condição preciosa para o crescimento genuíno do amor interpessoal”.
Leão XIV ressaltou, contudo, que os caminhos de preparação matrimonial não são suficientes se não forem precedidos e acompanhados por uma educação para o amor desde a infância. Neste sentido, recordou as palavras do Papa Francisco de que “aprender a amar alguém não é algo que se improvisa” e de que cada pessoa começa a se preparar para o matrimônio “desde o seu nascimento”.
Famílias que testemunham o Evangelho
O Pontífice também valorizou o testemunho cotidiano das famílias que vivem sua vocação com fidelidade. “Merecem ser valorizados e apoiados os esforços de tantas famílias que, nas nossas cidades e aldeias, vivem a sua vocação e missão dia após dia, sem ruído, mas com fidelidade por vezes heroica”, escreveu.
Segundo Leão XIV, o testemunho de pais, filhos, avós, jovens e idosos contribui para que “a mensagem de verdade e plenitude de vida do Evangelho” se difunda pelo mundo. Recordando o mandamento deixado por Jesus — “que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei” —, o Papa convidou a Igreja a crescer como uma “família de famílias”, marcada pelo cuidado recíproco. “Ponhamo-la em prática, para crescermos como Igreja que é ‘família de famílias’, num clima de cuidado recíproco do qual todos beneficiaremos”.
Leão XIV destacou que esse cuidado deve alcançar os jovens casais, os pais que enfrentam os desafios da educação dos filhos, os idosos e também aqueles que atravessam situações difíceis ou momentos de crise. “Lembremo-nos de que, por mais ferida que uma família possa estar, ela pode sempre crescer a partir do amor”, acrescentou.
Abertura e respeito pela vida
Na homilia, o Papa também relacionou a caridade vivida no ambiente familiar à defesa da vida humana. “Nesta caridade, fundamental para a nossa própria existência e convivência como seres humanos, encontram também raízes os valores da abertura e do respeito pela vida, desde a concepção até ao seu fim natural”, escreveu.
Leão XIV definiu a família como “guardiã por excelência desses valores” e retomou uma afirmação de Francisco segundo a qual “nenhuma união precária ou fechada à transmissão da vida garante o futuro da sociedade”.
“O mundo não tem futuro sem famílias sólidas, abertas ao dom dos filhos, atentas à sua educação e crescimento”, reforçou.
Família como lugar de oração
Outro ponto destacado pelo Pontífice foi a importância da oração no ambiente familiar. Leão XIV observou que, em muitas partes do mundo, o hábito de rezar juntos antes das refeições, no início e no fim do dia ou em ocasiões especiais tem enfraquecido.
A Amoris laetitia, recordou, ressalta “a importância da espiritualidade familiar, da oração e da participação na Eucaristia dominical”. “A oração comum e os Sacramentos têm um papel muito relevante na vida familiar porque, ao abrirem os corações à ação de Deus, permitem chegar juntos até onde, sozinhos, nunca se poderia chegar”, afirmou.
Segundo o Papa, a oração e os sacramentos são “um alimento sólido e um remédio salutar”. Por isso, exortou as famílias a redescobrirem e promoverem essa prática.
Comunhão com a Igreja Caldeia
Durante a celebração, o Cardeal Tagle recordou ainda que presidia à Missa por mandato especial do Papa Leão XIV, também para manifestar publicamente a comunhão eclesial concedida a Sua Beatitude Polis III Nona, Patriarca de Bagdá dos Caldeus, presente na Eucaristia.
“A comunhão de um Patriarca com o Sucessor de Pedro evoca um antigo costume que sancionava a unidade na fé e na caridade de uma Igreja patriarcal com a Sé de Roma e, na época, das próprias Igrejas entre si”, afirmou.
Segundo o cardeal, essa prática não representa uma mera formalidade, mas “uma realidade viva” fundamentada na comunhão eucarística, “fonte e ápice da unidade da Igreja em Cristo”.
Dirigindo-se ao Patriarca, o purpurado destacou que sua presença ajuda a compreender a Igreja como comunhão em Cristo, formada por diferentes ritos e tradições e visivelmente unida ao Sucessor de Pedro. O cardeal assegurou ainda “o afeto de toda a Igreja Católica” e as orações pelos fiéis confiados aos seus cuidados pastorais, que permanecem firmes no testemunho da fé mesmo diante de numerosas adversidades.
Oração pelas famílias
Ao concluir a homilia, Leão XIV confiou todas as famílias e a Igreja à Sagrada Família de Nazaré, retomando a oração proposta pelo Papa Francisco no encerramento da Amoris laetitia:
“Sagrada Família de Nazaré, tornai também as nossas famílias lugares de comunhão e cenáculos de oração, autênticas escolas do Evangelho
e pequenas igrejas domésticas. […] Que nunca mais haja nas famílias episódios de violência, de fechamento e divisão; e quem tiver sido ferido ou escandalizado
seja rapidamente consolado e curado. […] Fazei que todos nos tornemos conscientes do carácter sagrado e inviolável da família, da sua beleza no projeto de Deus. Jesus, Maria e José, ouvi-nos e acolhei a nossa súplica. Amém”.
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