Papa sobre migrantes: mundo não pode se acostumar a contar os mortos
- 11/06/2026
Nas Ilhas Canárias, Leão XIV encontrou migrantes, denunciou a indiferença diante das mortes no mar e defendeu políticas que garantam dignidade a todos
Julia Beck
Da Redação

Papa Leão XIV reza e faz um minuto de silêncio pelos migrantes mortos no mar durante visita às Ilhas Canárias /Foto: REUTERS/Yara Nardi
A realidade migratória das Ilhas Canárias esteve no centro da atenção do Papa Leão XIV nesta quinta-feira, 11. Em viagem à Espanha desde o último sábado, 6, o Pontífice visitou hoje o Porto de Arguineguín, nas Ilhas Canárias, para conhecer de perto o trabalho de acolhida aos migrantes que chegam ao arquipélago.
Acesse
.: Todas as notícias sobre a viagem do Papa à Espanha
Considerada uma das principais portas de entrada para a Europa, a rota das Canárias registrou, em 2024, um recorde histórico de 41.425 migrantes provenientes da África Ocidental. O aumento do fluxo migratório também foi acompanhado pelo aumento das mortes durante a travessia.
No Porto de Arguineguín, o Santo Padre ouviu testemunhos de migrantes e do bispo local antes de proferir seu discurso. “Tantas vidas feridas chegam aqui, despojadas de quase tudo, mas nunca de sua dignidade. Aqui, o Evangelho nos arranca do assento confortável do espectador e nos coloca diante do irmão que chega. Ele nos pergunta se reconhecemos Cristo naqueles que desembarcam marcados pelo medo, pela fome e pela violência, depois do deserto, da noite e do mar”, disse.
“Pescadores de homens” e a realidade das Canárias
Leão XIV comentou sobre o Anel do Pescador que utiliza e frisou que o próprio nome remete ao Mar da Galileia, onde Cristo chamou Pedro e lhe disse: “De agora em diante, você será pescador de homens” (Lc 5,10).
Segundo o Pontífice, a Igreja tem interpretado esse versículo como uma imagem de sua missão. Contudo, no arquipélago, e em lugares como El Hierro, esse mandamento assume uma força literal e dolorosa.
“Essa ilha, pequena em tamanho, mas vasta em humanidade, testemunhou a chegada de milhares de pessoas arrancadas de sua terra natal e entregues à fragilidade de um barco. Há pessoas resgatadas no mar e corpos sem vida recuperados nas águas. Por essa razão, o Sucessor de Pedro não pode ignorar esses desembarques. A Igreja não pode ignorar essas águas, nem qualquer lugar onde a fome, a sede, a violência, o medo ou o exílio continuem a ferir a dignidade humana”, afirmou.
Contra as máfias e a indiferença
Na linguagem bíblica, observou o Santo Padre, o mar pode representar ameaça, trevas e caos. “Ainda hoje, monstros rondam estes mares: máfias que traficam com o desespero, traficantes que escravizam mulheres e crianças, e a indiferença de muitos que permite que os pobres sejam engolidos pela exploração ou pelo esquecimento”.
No entanto, indicou que a fé não se deixa paralisar diante do poder do mar. “Cremos num Deus que subjuga o caos, impõe limites ao mal e abre um caminho quando a morte parece prevalecer”, sublinhou.
Segundo Leão XIV, a voz de Deus diante da tempestade que o povo de Israel encontrou ao atravessar o Mar Vermelho, expressa nas palavras “Paz, acalma-te!” (Mc 4,39; cf. Mt 14,25-27), continua a ressoar contra as forças que devoram, escravizam e descartam tantas pessoas nos dias de hoje.
Misericórdia traduzida em gestos concretos
O Pontífice afirmou que, onde Cristo ordena ao mar que se cale, a Igreja não pode permanecer em silêncio diante daqueles abandonados às suas águas.
Ouvir os testemunhos e se colocar no lugar de tantas pessoas que viveram realidades difíceis, sublinhou Leão XIV, é compreender que a consciência já não tem desculpas e que a misericórdia deve ser traduzida em pequenos gestos: na doação de alimentos, no acolhimento e na ajuda concreta.
Um agradecimento sincero foi dirigido a todos os que realizam ações humanitárias, testemunhando que a misericórdia concreta pode salvar e transformar muitas vidas.
Leão XIV deixou também uma mensagem às mulheres vítimas do tráfico e da exploração: “se outros colocaram um preço em seu corpo, Deus nunca deixou de olhar para você como uma pessoa de valor inestimável. Se eles quiseram te aprisionar em um passado doloroso, Deus continua a te prometer um futuro melhor. Se te trataram como um objeto, a Igreja quer te dizer hoje: você é filha e irmã, você é uma bênção. Sua vida não pertence àqueles que te fizeram mal; seu corpo não pertence àqueles que te fizeram mal”.
Apelo aos governantes
O Papa dirigiu-se ainda aos políticos e governantes do mundo, afirmando que não basta apresentar dados e estatísticas; é preciso agir diante da realidade dos migrantes. “Que tipo de mundo estamos construindo se tantos têm arriscado a vida para sobreviver?”, questionou.
O Pontífice afirmou que, da mesma forma que existem leis que asseguram o direito de migrar, também são necessárias políticas que permitam às pessoas viver com dignidade em sua própria terra. “Não podemos nos habituar a contar os mortos”, exortou.
Leão XIV frisou que Deus também julgará a humanidade pelo amor e, por isso, é preciso pedir que todos sejam capazes de reconhecê-Lo nos pobres e nos estrangeiros.
“Que Nossa Senhora acompanhe quem chegou, console os que perderam seus entes queridos e nos impulsione a viver a misericórdia”, desejou.
Não banalizar o sofrimento e não permitir que a indiferença fale mais alto foram outros pedidos do Santo Padre. “Cada vida que chega [nas Ilhas Canárias] nos pergunta: o que resta da nossa humanidade?”.
Memória dos que morreram no mar
Após o discurso, Leão XIV recebeu flores de dois migrantes e, na sequência, lançou-as ao mar em memória daqueles que morreram durante a travessia.
Foi realizado um minuto de silêncio e oração. Em seguida, o Papa rezou e abençoou os migrantes que lhe entregaram as flores, além de abençoar solenemente uma cruz feita com madeiras de uma embarcação que transportou migrantes até o arquipélago. O objeto simboliza a presença de Cristo naqueles que sofrem.
Antes de seguir para seu próximo compromisso, o encontro com o clero, o Papa saudou os migrantes que participaram do momento no porto de Arguineguín.
O post Papa sobre migrantes: mundo não pode se acostumar a contar os mortos apareceu primeiro em Notícias.






