Sacerdotes em crise: bispo comenta desafios e iniciativas para ajudá-los

  • 30/04/2026

Destaque da intenção de oração do Papa, os sacerdotes em crise estão no centro da atenção da Igreja; veja entrevista com presidente da comissão da CNBB sobre o cuidado com essa realidade no Brasil

Kelen Galvan
Da redação

sacerdote dentro do confessionário com as mãos postas, contrito e segurando o terço

Foto: Canva Pro

Os sacerdotes também precisam de cuidado, proximidade e escuta. Neste mês de abril, o Papa Leão XIV dedicou sua intenção de oração pelos sacerdotes em crise, destacando a realidade da solidão, de dúvidas e do cansaço.

“Antes de tudo, os sacerdotes são pessoas humanas que vivem também os seus desafios e as suas fragilidades (…) e muitas vezes estão sozinhos em algumas realidades, então, às vezes, vem o desânimo ou as preocupações”, afirma o presidente da Comissão Episcopal para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada, Dom Ângelo Ademir Mezzari.

Segundo o bispo, esse panorama também é reflexo do que têm acontecido na sociedade. Há casos de padres que enfrentam a depressão, e de alguns que se suicidaram. Diante disso, ‘a Igreja tem uma atitude de compreensão e de misericórdia”, ressalta Dom Mezzari, mas, sobretudo, está buscando meios para ajudar.

Em entrevista ao noticias.cancaonova.com, o bispo aprofunda essa realidade vivida pelos sacerdotes e destaca as iniciativas da Igreja no Brasil para auxiliá-los e para prevenir esse problema. Além disso, dá indicações de como os fiéis na comunidade podem apoiar o padre, com a oração, a proximidade e um afeto respeitoso. Confira a seguir: 

Neste mês de abril, a iniciativa “Reza com o Papa” tem como tema “Sacerdotes em crise”. Quais as principais causas que levam a esta crise?

Dom Ademir Mezzari: Antes de tudo, é muito positiva essa iniciativa do Papa de, nas intenções de oração, lembrar dos padres. E justamente recordar que, antes de tudo, os sacerdotes são pessoas humanas que vivem também os seus desafios e as suas fragilidades.

Dom Ademir Mezzari / Foto: Bruno Marques – CN

E na videomensagem aparece, talvez, aquele diagnóstico que normalmente a origem está no cansaço (pelas exigências do ministério), nas dúvidas (diante da sociedade, das exigências e cobranças) e na solidão. Os padres, muitas vezes, estão sozinhos em algumas realidades, então, às vezes, vem o desânimo ou as preocupações.

Olhar com o olhar da fé para a humanidade dos sacerdotes, rezando por eles, para que depois encontrem junto com a Igreja a fraternidade presbiteral, os espaços, nesse amor que é dado incondicionalmente, essa entrega total.

O que os padres passam é o que a sociedade passa, a humanidade passa. Eles têm uma outra perspectiva. É no cansaço encontrar a força, na solidão saber que não está só: Deus está com ele. E nas dúvidas, a sua formação e também a compreensão da realidade.

Nesse aspecto da “solidão”, alguns padres enfrentam a depressão e houve alguns casos de suicídio, até mesmo de jovens sacerdotes. Há dados atuais sobre esse panorama? E por que muitos padres estão adoecendo?

Dom Ademir Mezzari: Nós temos essa pressão social e às vezes a pressão eclesial. Hoje, alguns casos que têm acontecido são reflexo também de uma sociedade. É difícil entrar na consciência e no coração, por exemplo, dos padres que se suicidaram. A Igreja tem uma atitude de compreensão, de misericórdia e, sobretudo, está buscando aqueles meios e remédios que podem ajudar, como a comunhão na diocese, a abertura do coração nas situações de um acompanhamento, às vezes, psicológico, psiquiátrico, a orientação espiritual.

De um lado, os padres são convidados a abrirem as situações que vivem com seu bispo, com amigos padres sinceros, e de outro lado, nós temos que estar atentos àqueles sinais, sintomas ou manifestações, para também nos aproximar. Então a Igreja tem esse chamado a se aproximar dos sacerdotes, que às vezes têm um histórico familiar, um histórico de exercício do ministério, passam por situações de crise, para compreendê-los e ajudá-los.

“Padres são convidados a abrirem as situações que vivem com seu bispo, com amigos padres sinceros, e de outro lado, nós temos que estar atentos àqueles sinais, sintomas ou manifestações, para também nos aproximar” 

Infelizmente, temos alguns casos de suicídio, mas também temos um maior número de casos de pessoas, sacerdotes, que se abriram e foram curados, foram tratados e recomeçaram com alegria o seu ministério.

Dados concretos eu não tenho de números, mas são alguns casos que nos chamam a atenção e nos levam a cuidar. Essas realidades de sofrimento, às vezes de depressão, de burnout e outros, são fruto da sociedade que vivemos, das exigências sociais, às vezes das impossibilidades pessoais. E devem levar, tanto da parte do presbítero (com uma busca de um caminho espiritual e fraterno, para que seja tratado e curado), quanto da parte da Igreja (isso é, do bispo, dos presbíteros e da própria comunidade paroquial), o apoio e o sustento.

Quanto ao papel da Igreja, que tipos de iniciativas de apoio existem aqui na Igreja no Brasil, em âmbito diocesano e da própria CNBB?

Dom Ademir Mezzari:  Então, na conferência, nós tratamos com os bispos sobre a questão da saúde integral. Porque, mais que a saúde mental, a saúde integral significa todas as dimensões humanas, humano-afetiva, espiritual, comunitária, fraterna, acadêmica. Então, a Igreja no Brasil tratou desse tema, fez um levantamento, tratou com os bispos reservadamente. Foram dadas também indicações e instruções – com base em estudos sociais e ciências humanas -, para que os bispos possam ajudar.

Em segundo lugar, cada diocese tem a responsabilidade de acompanhar. O caminho é a comunhão e a unidade da fraternidade presbiteral, não existem outros caminhos. Os casos específicos devem ser acompanhados. Um dos fatos mais marcantes é a necessidade de um acompanhamento espiritual para renovar aquele dom que recebeu, aquela sua vocação. Também o acompanhamento com terapias, que são muito importantes, e em alguns casos, claro, um tratamento também psiquiátrico.

“Uma das soluções, diante da realidade, é trabalhar na formação – desde o discernimento vocacional e ao longo do processo formativo”

A Igreja tem procurado dar resposta e tem surgido várias iniciativas. Nós temos a Organização dos Seminários do Brasil, que faz encontros anuais com os psicólogos e terapeutas que acompanham os seminários. Então, uma das soluções, diante da realidade, é trabalhar na formação. O nosso caminho está desde o discernimento vocacional, para ver se aquele perfil se adequa à vivência do celibato e das exigências do Ministério Ordenado. Por isso que é dom, é graça, é vocação que passa pela mediação da Igreja. E, ao mesmo tempo, é preciso acompanhar ao longo do processo formativo, para que sejam ajudados a discernir se é aquela vocação. E quando assumirem o celibato e os conselhos evangélicos (pobreza, castidade e obediência), viverem a vida consagrada e o celibato por causa do Reino, possam vivê-lo com serenidade, alegria e paz.

Algumas faculdades têm oferecido cursos para a formação daquelas pessoas que possam acompanhar presbíteros, tem várias iniciativas em várias faculdades católicas, cursos de formação de formadores, casas de acolhida também para sacerdotes em crise, centros de acompanhamento, então tem se proliferado para oferecer essas condições.

Agora, é importante lembrar que sempre depende muito dessa relação entre o presbítero e o seu bispo, entre o presbítero consagrado e o seu superior religioso, uma questão de abertura, de diálogo. Não há solução nem, dizemos assim, imaginária, nem mágica, nem improvisada. Trata-se de uma iniciativa que ajuda e que parta também dos presbíteros e a atenção e o cuidado do bispo, como pastor e pai, para que esteja atento junto com o seu presbitério.

E no âmbito comunitário, de que maneira a comunidade pode apoiar os padres que enfrentam essas dificuldades?

Dom Ademir Mezzari: O padre, por vocação e missão, está aí na comunidade, no meio do povo de Deus. Então, esse afeto é muito importante. Um afeto respeitoso, que não é invasivo, que esteja atento às necessidades do sacerdote (que já é prevista pela manutenção da Igreja), a proximidade, o diálogo, a presença e a disponibilidade no serviço. Mas o padre também precisa dos seus tempos pessoais.

A solidão, quando a tratamos na perspectiva espiritual, é uma experiência própria. Cristo passou pela solidão. Então, há um diálogo, a comunhão, o apoio, mas também há o respeito, por exemplo, pelo dia de descanso do padre, pela semana que ele tem que fazer o retiro espiritual ou um curso que ele tenha que fazer. Que a comunidade não apenas “absorva” e usufrua do padre. Ele está ali 24 horas a serviço, mas também tem seu tempo.

“É preciso encontrar esse equilíbrio entre a proximidade, o diálogo, o apoio, rezar pelos sacerdotes, e, ao mesmo tempo, ajudá-lo para que ele tenha esse tempo [para si] que é necessário”

O padre precisa ter tempo para a oração, para a celebração da Eucaristia, para o retiro, tempo para cursos de atualização. Na dinâmica presbiteral são previstos isso, a dinâmica pastoral (o trabalho na paróquia), mas também o dia de repouso e o tempo de férias. Então, hoje, talvez, um dos desafios das comunidades eclesiais e paróquias é compreender essa necessidade do sacerdote. Ele precisa descansar, normalmente é na segunda-feira, na maioria das dioceses, ou um outro dia. Ele precisa parar, precisa dormir bem, às vezes precisa visitar a família ou ir numa consulta médica, para um tratamento. E depois se dedica totalmente à comunidade paroquial.

É preciso encontrar esse equilíbrio entre a proximidade, o diálogo, o apoio, rezar pelos sacerdotes, e, ao mesmo tempo, ajudá-lo para que ele tenha esse tempo que é necessário, como é previsto também nas orientações pastorais.

Veja também

O post Sacerdotes em crise: bispo comenta desafios e iniciativas para ajudá-los apareceu primeiro em Notícias.

FONTE: https://noticias.cancaonova.com/igreja/sacerdotes-em-crise-bispo-comenta-desafios-e-iniciativas-para-ajuda-los/


#Compartilhe

Aplicativos


Locutor no Ar

Peça Sua Música

Top 5

top1
1. Raridade

Anderson Freire

top2
2. Advogado Fiel

Bruna Karla

top3
3. Casa do pai

Aline Barros

top4
4. Acalma o meu coração

Anderson Freire

top5
5. Ressuscita-me

Aline Barros

Anunciantes