Síria: Servindo a Deus e às pessoas em meio à guerra e às adversidades

  • 01/08/2026

Em Damasco, ela é conhecida como a irmã que administra o “Hospital Francês”; há quatro anos, Ir. Judita atua na Síria, onde administra um hospital católico

Da redação, com Vatican News

Ir. Judita Cáková, que é membro da Companhia das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo / Foto: Reprodução Youtube

Há 33 anos, a Irmã Judita Cáková integra a Companhia das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo. Enfermeira de formação, ela atuou em diversas partes do mundo — incluindo campos de refugiados e zonas de conflito — antes de chegar a Damasco.

Ela recorda um encontro que lhe marcou profundamente. Quando as pessoas perguntavam “Quem é a mulher que está nos ajudando?”, um intérprete respondia simplesmente: “Ela é uma mulher que ama a Deus e ao próximo”. Essas palavras permaneceram com ela desde então.

Sua decisão de atuar como voluntária em missões humanitárias foi inspirada por um artigo que a comoveu profundamente. “Fiquei sensibilizada com a extrema pobreza das pessoas que haviam fugido da guerra e da violência sem nada, necessitando até mesmo da assistência mais básica”, conta ela.

Hoje, sua missão assumiu uma nova forma. “Minha responsabilidade é administrar o hospital de modo a garantir sua sustentabilidade financeira, mantendo-me fiel ao nosso carisma de servir aos pobres.”

O hospital, amplamente conhecido em Damasco como “Hospital Francês”, pertence às Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo. Embora as irmãs supervisionem a administração, a maioria dos funcionários é composta por profissionais leigos de diferentes origens religiosas.

Um começo desafiador

Quando a Irmã Judita chegou à Síria, ela não falava árabe e teve de se adaptar a um sistema de saúde completamente diferente. “Eu sabia um pouco de francês e inglês”, recorda ela com um sorriso, “mas todos os idiomas acabavam se misturando na minha cabeça.”

Aos poucos, ela encontrou formas de se comunicar e se estabeleceu em seu trabalho no centro cirúrgico. “Eu gostava especialmente de auxiliar em cesarianas, pois o procedimento era exatamente o mesmo.”

Dois médicos que haviam estudado na Rússia tornaram-se mentores valiosos. “Foi uma grande ajuda, pois eu podia fazer perguntas e eles me explicavam tudo com paciência.”

Hoje, o hospital opera em condições desafiadoras. Conta com 108 leitos, cerca de 250 funcionários e trabalha com aproximadamente 130 médicos. “Minha responsabilidade é garantir que a equipe receba seus salários regularmente e tenha boas condições de trabalho.”

Manter a estabilidade financeira, sem deixar de ser fiel à missão do hospital, é um desafio constante. “Não podemos atender apenas os pobres, pois não temos nenhuma organização capaz de financiar todo o tratamento deles. Por isso, também recebemos pacientes que podem pagar pelo tratamento, o que nos permite cuidar daqueles que não têm condições.”

O hospital colabora estreitamente com a Caritas e com várias organizações beneficentes na Síria apoiadas por doadores internacionais. Em anos anteriores, também recebeu assistência significativa por meio da iniciativa “Open Hospital” (Hospital Aberto) do Vaticano, liderada pelo Núncio Apostólico, Cardeal Mario Zenari. “Graças a esse apoio, muitas pessoas puderam passar por cirurgias que salvaram suas vidas, inclusive em situações de emergência.”

Incerteza crescente

Segundo a Irmã Judita, a sociedade síria mudou drasticamente desde a eclosão da guerra em 2011. “Muitas pessoas têm dois empregos simplesmente para sobreviver. Houve também um grande êxodo de pessoas instruídas — especialmente cristãos e membros de comunidades minoritárias — para a Europa, as Américas e a Austrália.”

Aqueles que permanecem, diz ela, são frequentemente pessoas que não têm possibilidade de partir. As tensões regionais acrescentaram mais uma camada de incerteza: explosões e ataques com foguetes tornaram-se parte do cotidiano.

Um ataque permanece particularmente vivo em sua memória. Após um atentado a bomba em uma igreja ortodoxa que vitimou várias pessoas, a maioria dos feridos foi levada para o Hospital Francês. “Tratamos cerca de oitenta por cento deles.” Muitas das vítimas eram jovens. “Quando lhes perguntávamos, após a cirurgia, como poderíamos ajudá-los, quase todos davam a mesma resposta: queriam deixar o país.”

Um lugar de paz e acolhimento

Apesar da violência que o cerca, o hospital se esforça para permanecer um lugar de esperança. “Nossa instituição tem uma atmosfera cristã — de respeito, cooperação e um desejo genuíno de servir ao próximo.” Os funcionários são incentivados a ver Cristo em cada pessoa e a tratar cada paciente com dignidade e compaixão. “Essa é uma das razões pelas quais as pessoas se sentem seguras aqui.”

Em um país onde a maioria das unidades de saúde é administrada pelo Estado, o Hospital Francês tornou-se um símbolo de confiança para muitas famílias. A instituição também continua a crescer. Recentemente, inaugurou um novo setor de cardiologia, oferecendo serviços de cateterismo cardíaco e cirurgia de coração aberto. “É importante que todos, inclusive os cristãos, tenham acesso a assistência médica de alta qualidade.”

Sua missão muitas vezes vai além da área da saúde. Em períodos de crise, o hospital ofereceu acomodação para profissionais de saúde que haviam perdido repentinamente tanto suas casas quanto seus empregos. Também organizou transporte para os funcionários, pois transitar por Damasco após o anoitecer havia se tornado cada vez mais perigoso. “Não há eletricidade. A cidade está às escuras e as pessoas estão com medo.”

Uma esperança que perdura

A Irmã Judita reconhece que o hospital depende muito do apoio internacional. “Toda forma de ajuda é bem-vinda, seja financeira ou material. Precisamos urgentemente de uma nova ambulância e também de ajuda para custear cirurgias de pacientes carentes.”

No entanto, em meio à guerra, às dificuldades e à incerteza, são as vidas transformadas que continuam a sustentar sua esperança. Ela recorda o caso de uma menina que nasceu prematura, com apenas seis meses de gestação.

“Ela nasceu no dia de São Miguel, por isso sugerimos o nome Miša.” Hoje, aquela menina é uma criança saudável de dois anos. “Momentos como esses nos trazem imensa alegria”, diz a Irmã Judita. “Eles nos lembram por que continuamos.”

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FONTE: https://noticias.cancaonova.com/igreja/siria-servindo-a-deus-e-as-pessoas-em-meio-a-guerra-e-as-adversidades/


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