Tecnologia não altera natureza moral da prostituição, frisa professor
- 17/09/2026
Professor de Teologia e padre refletem, à luz da Igreja, sobre realidade da autoexposição e venda de conteúdo adulto on-line
Gabriel Fontana
Da Redação

Foto: Dragana_Gordic via magnific
Considerada uma das mais graves ofensas à castidade, a prostituição tem desenvolvido uma nova face nos últimos anos. Com o advento da internet e das redes sociais e os avanços tecnológicos, surgiram plataformas para comercialização de conteúdo pornográfico on-line, principalmente envolvendo a autoexposição — uma realidade que tem crescido cada vez mais no Brasil.
Mais e mais pessoas têm vendido fotografias e vídeos na internet, expondo seus corpos de maneira pornográfica. Foi o caso de Vitor Castro, que deixou para trás essa realidade e atualmente trabalha como gerente de contas.
Vitor relata que começou a vender conteúdo adulto na internet para custear o estilo de vida desenfreado que tinha. Afundado em vícios, ele viu na pornografia a possibilidade de ganhar dinheiro de maneira rápida e fácil. “Eu me sentia sujo e sem dignidade comercializando este conteúdo. Na época, tinha a visão de um comércio prostituído, mas que lucrava muito”, partilha.
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A partir de uma experiência com Deus, Vitor encontrou a força necessária para parar de vender conteúdo adulto na internet, mesmo que ainda precisasse de dinheiro. “A fé me iluminou e minha consciência me acusava. Antes de ter a consciência iluminada, não me acusava pois não havia compreendido que meu corpo era templo do Espírito Santo”, observa.
Relação entre pessoa e corpo

Professor Mário Ribeiro / Foto: Arquivo pessoal
Jurista e professor de Direito, Filosofia e Teologia na Universidade Federal do Pará (UFPA), Mário Ribeiro aponta que não há uma causa única para o crescimento da venda de conteúdos adultos. Muitos são movidos pelo incentivo econômico e pela expectativa de renda rápida, além da busca por visibilidade e validação social.
De forma mais profunda, Ribeiro indica que, atualmente, prevalece certa tendência a um dualismo antropológico pelo qual o indivíduo se identifica com um “eu” que simplesmente possui e utiliza um corpo. “Se eu sou uma coisa e meu corpo é outra, o corpo facilmente se converte em instrumento”, assinala.
Essa percepção destoa completamente da visão católica, segundo a qual a pessoa humana constitui uma unidade anímico-corpórea. “Não apenas tenho um corpo, mas sou uma pessoa corporal. Por isso, aquilo que faço deliberadamente com o corpo alcança a própria pessoa”, explica o professor.
A dignidade do trabalho
A partir desse conceito, Ribeiro frisa a necessidade de recordar a dimensão de dignidade contida no trabalho. Este não se reduz a uma prestação de serviço motivada por um retorno financeiro, nem equivale a todo tipo de atividade simplesmente porque alguém está disposto a pagar por ela.
“O trabalho é um meio pelo qual a pessoa persegue e realiza os valores objetivos fundamentais. Uma atividade que viola esses valores não se converte em trabalho autêntico por força do mercado, da tecnologia ou de uma mudança cultural”, declara o professor.
Considerar a criação e comercialização de conteúdo adulto como “trabalho” contribui para a normalização desta prática, afirma Ribeiro. “A pornografia, precisamente por contrariar bens fundamentais, não se torna trabalho autêntico simplesmente porque foi incorporada ao mercado”, frisa. “Todo trabalho autêntico deve realizar simultaneamente algum bem para a pessoa que trabalha e para a comunidade”, acrescenta.
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O que a Igreja diz sobre a prostituição?
O professor reflete ainda que, embora haja uma diferença material entre a criação de conteúdo adulto e a prostituição que envolve relação sexual, ambas as práticas partilham de um mesmo núcleo moral, fundamentado na transformação da intimidade sexual e da própria corporalidade em objeto de consumo.
“A distância proporcionada pela tecnologia pode, inclusive, facilitar o ingresso na atividade”, alerta Ribeiro. “A tecnologia reduz determinadas barreiras materiais e psicológicas, mas não altera necessariamente a natureza moral da escolha. Pode mudar a forma da ação sem modificar aquilo que, essencialmente, está sendo escolhido”, salienta.
“A prostituição vai contra a dignidade da pessoa que se prostitui, reduzida, assim, ao prazer venéreo que dela se obtém.”
— CIC, n. 2355
Neste contexto, o padre José Rafael Solano Duran, da Arquidiocese de Londrina (PR), sublinha o que a Igreja ensina em relação à prostituição. “Quando olhamos o Catecismo da Igreja Católica (CIC) sobre os itens das ofensas contra a castidade — e uma delas é a prostituição — nós não estamos dizendo que é só um tipo de prostituição”, afirma, “prostituir-se e prostituir uma pessoa é cortar, na base, a possibilidade de reconhecer o quão digna é a pessoa em si mesma”.

Padre Rafael Solano / Foto: Reprodução Instagram
O sacerdote, que também atua como coordenador de Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), aponta que a prostituição “é um pecado mortal porque também inclui possivelmente o adultério, a infidelidade, a fornicação e um ato completamente desordenado”, acrescenta.
Padre Rafael Solano frisa que, sempre que se paga para obter um prazer venéreo de alguém, tal ato transforma o outro em um objeto. “Nós não podemos jamais subutilizar uma pessoa”, sublinha, “e qualquer uso, na internet, de conteúdo adulto também é uma forma de prostituir a outra pessoa”.
Prostituição e pornofilia
Segundo o sacerdote, há três elementos sociais graves por trás da prostituição. O primeiro deles é a já citada objetificação da pessoa, transformando-a em um objeto de prazer. O segundo, é o meio pelo qual o prazer é obtido, visto que existem redes de prostituição que exploram mulheres, homens e até mesmo crianças e adolescentes.
“A pornografia consiste em retirar os atos sexuais, reais ou simulados, da intimidade dos parceiros para exibi-los a terceiros de maneira deliberada. Ela ofende a castidade porque desnatura o ato conjugal (…) [e] atenta gravemente contra a dignidade daqueles que a praticam.”
— CIC, n. 2354
Por fim, o terceiro ponto citado pelo padre é a objetificação da relação sexual em si, deturpando a finalidade para a qual Deus a destinou. “As marcas que deixa a prostituição são marcas profundas”, frisa.
Padre Rafael Solano adverte ainda para o vício em pornografia, chamado pornofilia, que ajuda a sustentar essa indústria. “Quando uma pessoa é pornofílica, só obtém prazer vendo imagens pornográficas. É um vício que atinge profundamente todo o cérebro e o sistema neuronal afetivo da sinapse da pessoa, ao ponto de que muitas pessoas não conseguem mais desligar-se”, conclui.
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