Tempo da Criação: entenda a proposta da Igreja para este período

  • 15/09/2026

Padre que assessora o Serviço de Animação Laudato si’ na diocese de Lorena (SP) comenta ações da Igreja sobre o cuidado da Criação

Jéssica Marçal
Da Redação 

Foto: Andry Sasongko de Pexels via Canva

Tempo da Criação: um período celebrado por algumas denominações cristãs para ouvir o grito da Terra e renovar o compromisso de cuidar da criação de Deus. Neste ano o tema central é “Água Viva”, inspirado na visão do profeta Ezequiel (capítulo 47, versículos de 9 a 12), que traz uma perspectiva de esperança e cura.

Assessor do Serviço de Animação Laudato si’ na diocese de Lorena (SP), padre Ailton Martins Evangelista explica os pormenores deste período – focado na espiritualidade – que começou em 1º de setembro e se estende até a Festa de São Francisco de Assis, em 4 de outubro. Ele também explica a diferença entre Pastoral da Ecologia e Serviço de Animação Laudato si’, que se difundiram na Igreja principalmente após 2015, quando foi publicada a encíclica Laudato si’, do Papa Francisco.

Confira a entrevista (assista em vídeo ou leia uma transcrição adaptada): 

noticias.cancaonova.com – Estamos no Tempo da Criação, que começou em 1º de setembro com o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação. Um período especial de oração e ação dedicado à renovação da relação com o Criador e toda a criação. O que a Igreja nos pede nesse período?

Padre Ailton – Esse tempo que nós vivemos já é uma herança do nosso querido Papa Francisco. Na esteira dos últimos Papas – desde Leão XIII, os Papas traziam esses temas – o Papa Francisco, com a “Laudato si´ ”, deu essa grande promoção sobre esse tema do cuidado com a casa comum. A partir disso, houve também esses desdobramentos no sentido do cuidado da criação também de ser um cuidado de dentro pra fora. Então, todas as vezes que a gente pensa na criação, no meio ambiente, na natureza, nós somos remetidos a uma prática muito manual, muito artesanal. Nós limpamos, cuidamos, tiramos a poluição; mas a Igreja Católica, ela foi mais além: ela entende que todo cuidado, muito antes de uma prática externa, de uma prática manual, devemos começar essa prática de dentro pra fora, a partir do espírito, do nosso interior. Durante todo o ano, nós somos chamados a cuidar da criação, mas agora no mês de setembro, até a festa de São Francisco, nós somos chamados também a rezar, a contemplar a criação, pedir que Deus nos inspire boas coisas, pedir que Deus toque no coração das pessoas. Então, o Tempo da Criação é um tempo de oração onde está a Igreja Católica, mas também outras denominações — inúmeras denominações também bebem desse tempo e se unem em prol desse bem comum, do cuidado com a criação.

noticias.cancaonova.com – O Tempo da Criação se estende até 4 de outubro, dia de São Francisco de Assis, santo muito conhecido por seu olhar que contemplou toda a criação. Basta recordarmos o famoso Cântico das Criaturas. E nós estamos também no Ano Jubilar Franciscano, recordando este grande santo. Como nós podemos relacionar os seus ensinamentos às tantas emergências ambientais que temos atualmente, 800 anos depois de sua morte?

Padre Ailton –  Quando nós pensamos na vida dos santos, nós sempre entendemos que os santos são essa comunicação de Deus, esses luzeiros no meio do mundo caminhando na humanidade. Então os exemplos deles são modelos que vão nos instruindo. É interessante que São Francisco traz para nós essa mensagem de cuidado com a criação, mas é muito interessante porque os santos extrapolam a Igreja Católica. São Francisco é lembrado, é um modelo muito para além do catolicismo. Ele é estudado, inclusive é patrono da natureza e patrono dos biólogos, de tantas pessoas que trabalham diretamente com o meio ambiente, entendem e enxergam em São Francisco esse grande exemplo. Isso é bonito dos santos: que eles conseguem se comunicar dentro e fora dos nossos espaços.

Durante todo o ano, nós somos chamados a cuidar da criação, mas agora no mês de setembro, somos chamados também a rezar, a contemplar a criação, pedir que Deus nos inspire boas coisas.

Passados 800 anos, aquele Cântico das Criaturas, aquele cântico do irmãozinho de Assis, ele se comunica e ele nos ensina. Essa mensagem de São Francisco é que tudo está interligado e que nós fazemos parte de algo muito maior. Nós não estamos fora, mas nós somos, estamos juntos, fazemos parte de um todo. Essa é a mensagem também do Cântico das Criaturas que São Francisco traz para nós nesse tempo.

noticias.cancaonova.com – Do Francisco santo, vamos para o Francisco Papa. Em seu pontificado, a questão ambiental ganhou amplo destaque, dando visibilidade ao incisivo chamado à conversão ecológica, que ficou marcado na encíclica Laudato si’ e depois na exortação apostólica Laudate Deum, que abordou de forma mais específica a questão da crise climática. Em que medida esses documentos dizem do compromisso da Igreja nesse campo e como impulsionam e contribuem com a sociedade no enfrentamento da degradação ambiental, que não é de hoje?

Padre Ailton –  A Igreja caminha sempre buscando esse reconhecimento dos sinais dos tempos, e o Papa Francisco teve essa sensibilidade — assim como o Papa Leão tem essa sensibilidade maior para essas questões bélicas, as questões da guerra, a necessidade de falar sobre paz. O Papa Francisco percebeu essa necessidade do cuidado com a casa comum. É interessante que os outros Papas — Papa João Paulo II, Papa Bento, Papa Leão XIII, Papa Paulo VI — já têm ali essas falas que já comentam sobre esse cuidado com a criação, mas a novidade do Papa Francisco é a Igreja dedicar uma carta a essa temática: é um documento muito extenso e um documento muito rico! É interessante porque, convivendo com pessoas fora do nosso espaço eclesial, do nosso espaço religioso, lidando com ONGs, com professores, nas universidades, nesses espaços a Laudato si’ está lá! E é interessante porque o Papa Francisco conseguiu traduzir aquilo que estava presente no coração de muitas pessoas. Ele conseguiu nomear um sentimento presente em pessoas da academia, em pessoas que trabalham diretamente com o meio ambiente, em pessoas inclusive de outras religiões. Então muitos desses irmãos recorrem à literatura da Laudato si’ para poder encontrar ali um embasamento até mesmo para poder defender o cuidado com a criação.

Acesse também
.: Exortação apostólica Laudate Deum

noticias.cancaonova.com – A partir de 2015, com a publicação da Laudato si’, nós vimos surgir uma movimentação mais sistematizada em torno disso nas igrejas locais. Seja em forma de Pastoral da Ecologia Integral ou Serviço de Animação Laudato si. Há diferença entre essas duas formas de organização? Como elas tratam o tema da conversão ecológica em nível local?

Padre Ailton – Dessa carta do Papa Francisco, a Laudato si’, surgiram inúmeras inspirações. Eu gostaria de mencionar aqui o Movimento Laudato si’, global, que dialoga com as outras religiões, existe o site também do movimento, você pode acessar, então ele é muito importante. Ali a gente consegue colher inúmeros materiais.

A grande questão do cuidado com a criação começa primeiramente por uma sensibilização interna, e a Igreja Católica, ela tem isso muito forte: ela consegue conversar com o espírito, com as emoções, consegue sensibilizar mais as pessoas.

Pastoral da Ecologia e Serviço de Animação Laudato si’. O que eu gosto de dizer: há certos temas da nossa caminhada enquanto Igreja que são temas muito mais centrais, de dentro mesmo. Quando nós pensamos na música sacra, na questão dos sacramentos, a própria catequese, nós estamos falando de temas que estão ali no miolo da nossa fé. Mas há outros temas que são de fronteira. O que seria isso? São temas que, quando a gente conversa sobre eles, a gente consegue dialogar com ONGs, com o poder público, com outras religiões. O tema da ecologia integral é esse tema de fronteira. Por isso, quando pensamos em Pastoral da Ecologia, a ideia de “pastoral” é uma palavra muito mais eclesial, dentro do nosso meio religioso. A ideia da pastoral é uma ação de cuidado na Igreja: a Igreja cuida dos pobres, exerce a caridade, cuida dos sacramentos, cuida da liturgia. Então uma pastoral ecológica diz desse cuidado da Igreja, mas ainda em uma esfera muito dentro dela. Mas quando nós pensamos em um Serviço de Animação Laudato si’, nós extrapolamos: é nessa proposta que nós conseguimos adentrar nas universidades, que nós conseguimos ter contato com as prefeituras, com as ONGs. Então, a partir de uma inspiração religiosa, a gente consegue chegar nesses espaços seculares que estão para além do nosso perímetro religioso.

A grande questão do cuidado com a criação começa primeiramente por uma sensibilização interna, e a Igreja Católica, ela tem isso muito forte: ela consegue conversar com o espírito, com as emoções, consegue sensibilizar mais as pessoas. Por isso que uma das máximas deste trabalho é a conversão ecológica. O que é a conversão? É essa mudança de mentalidade! Há um caminho que está sendo feito pela humanidade que não está dando certo: a gente está poluindo, depredando, esgotando os recursos naturais, desperdiçando demais… Então a gente precisa mudar, e a Igreja, a partir dos seus valores, consegue dialogar com isso.

noticias.cancaonova.com – Como um exemplo desse serviço podemos citar a diocese de Lorena. Quando surgiu o Serviço de Animação Laudato si? Quais são as atividades promovidas e as principais dificuldades nesse trabalho pastoral?

Padre Ailton – Esse Serviço surgiu inicialmente na cidade de Cunha (SP), lá foi a primeira Pastoral da Ecologia, de forma muito embrionária. Um grupo de leigos com o pároco da época, juntamente com o Padre Fábio Nogueira, começaram a estudar a Laudato si’ — isso em 2019. Começaram com algumas ações pontuais. De Cunha já começou a se espalhar por toda a diocese, e são inúmeras as atividades. Nós já tivemos momentos formativos com o clero, com seminaristas, nós já tivemos momentos de assembleias nas paróquias… Aí as próprias paróquias e os paroquianos vão trazendo as possibilidades de efetivar esse cuidado. Desde, por exemplo, conseguir tirar os descartáveis das nossas festas, conseguir ter placas solares nas paróquias, até conseguir ter essa temática muito mais sensibilizada.

Talvez a nossa grande dificuldade seja explicar para as pessoas que cuidar da criação é um mandato do próprio Deus. Toda a ecologia também costura o livro mais importante para nossa fé (a Bíblia) Talvez falte para nossos cristãos, para toda a humanidade, essa consciência que é própria deste tempo. Então, a gente tem que ter essa paciência, mas reconhecendo também essa urgência que é própria deste tempo, para que a gente vá conseguindo conciliar o cuidado com a criação. Aí a gente volta lá em São Francisco, que conseguiu ter toda essa sintonia, toda essa harmonia.

Talvez a nossa grande dificuldade seja explicar para as pessoas que cuidar da criação é um mandato do próprio Deus.

noticias.cancaonova.com – Terminamos com o Papa Leão XIV, que segue as pegadas de seu predecessor, divulgou uma mensagem para o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação trazendo uma relação do cuidado da criação com a paz. Como essas reflexões mostram aos fiéis, todos eles, que a temática ambiental também faz parte da vida cristã, da vida como um todo, e por isso é tão importante conscientização e ação para preservar a casa comum?

Padre Ailton – O Papa Leão é muito feliz nas suas colocações. E quando a gente pensa nas questões das guerras, elas são devastadoras. Você tem uma biodiversidade, você tem uma fauna, uma flora própria daquele local, mas quando a guerra vem, ela devasta tudo. Então, quando nós olhamos para os Papas que estão nos pedindo isso, é a própria Igreja, o Espírito Santo que está nos levando para esse cuidado. Porque daí, quando nós pensamos no cuidado, toda a humanidade precisa se mobilizar. Mas quando pensamos no mundo, o globo terrestre aparenta ser muito grande para a gente poder mexer, você se sente muito pequeno diante de tantas urgências climáticas. Mas eu começo dizendo assim: é de dentro para fora! É de dentro da minha casa; depois toca na minha espiritualidade, ali na minha comunidade; e depois toca na minha rua, na minha cidade. Então, se você tem a oportunidade de desperdiçar menos na sua casa, de consumir menos na sua casa, já é um começo. Comece fazendo o exercício de separar lá na sua casa, na sua cozinha, o lixo que pode ser reciclado. A gente acha que é pouca coisa, mas comece! Acho que outro gesto também é a gente entender que essa temática faz parte da nossa espiritualidade: então rezar pela criação, não ser indiferente. Quando rezamos pela criação, não estamos sendo egoístas, pensando apenas em nós. Acho que uma máxima disso é que tudo está interligado, que nós vivemos numa casa comum, numa única casa: o que acontece num cômodo vai afetar o outro. Então comece na sua casa: dentro da sua espiritualidade, da sua casa, do seu bairro, da sua rua. Todo esse cuidado vai fazer a diferença.

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FONTE: https://noticias.cancaonova.com/igreja/tempo-da-criacao-entenda-a-proposta-da-igreja-para-este-periodo/


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