Violação da liberdade religiosa afeta dois terços do mundo

  • 06/08/2026

Relatório revela o avanço do extremismo e da discriminação silenciosa que ameaçam comunidades cristãs no mundo

Thiago Coutinho
Da redação

Cabo Delgado, Moçambique, quando, em 30 de abril de 2026, um ataque terrorista incendiou e destruiu a igreja de São Luís Maria Grignion de Montfort e a casa dos missionários / Foto: ACN Brasil

O Dia de Oração pelos Cristãos Perseguidos é celebrado nesta quinta-feira, 6. Estimativas da Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (ACN), em seu último relatório, apontam que 62 países registram graves violações à liberdade religiosa, afetando 5,4 bilhões de pessoas (cerca de dois terços da população global). É um número expressivo se considerarmos que, em pleno século XXI, o mundo ainda vive sob repressão religiosa. Por que isso acontece a esta altura?

“É uma pergunta que muitos se fazem”, afirma o Frei Rogério Lima, Assistente Eclesiástico Nacional da Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (ACN). “Vivemos em uma época de grandes avanços tecnológicos e científicos, mas isso não significa, necessariamente, um avanço na defesa da dignidade humana. A liberdade religiosa é um direito fundamental, mas, em muitos lugares, ela continua sendo negada por motivos ideológicos, políticos, nacionalistas ou extremistas”, lamenta.

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A religião ainda é vista em muitos países como uma forma de controle ou uma ameaça ao poder estabelecido. Já em outras regiões, grupos extremistas, por meio da violência, impõem sua visão de mundo. “Como cristãos, sabemos que a perseguição acompanha a história da Igreja desde os seus primeiros dias. O próprio Jesus advertiu: ‘Se perseguiram a mim, vão perseguir a vocês também’ (Jo 15,20). Isso não significa indiferença diante da injustiça, mas a consciência de que o Evangelho continua sendo um sinal de contradição. Ao mesmo tempo, somos chamados a transformar essa realidade por meio da oração e da solidariedade”, pondera o frei.

África: um triste recorde

Nesse mesmo relatório da ACN, a África é apontada como o continente que é epicentro de violência extrema contra comunidades religiosas. Indagado sobre o porquê de o continente africano seguir com essa triste marca histórica, Frei Rogério prefere ter cautela: nem todo o continente sofre com isso.

“Inicialmente, é preciso contextualizar que, quando falamos da perseguição religiosa na África, estamos dizendo que essa perseguição existe em determinadas regiões de determinados países. Por exemplo, temos, sim, perseguição religiosa no norte de Moçambique, mas não em todo o Moçambique”, detalha o sacerdote.

Frei Rogério viu essa realidade africana de perto, pois atuou como missionário em Moçambique. É uma realidade bem complexa e não há, segundo o frade, uma única explicação que a justifique. “Em regiões de vários países, como Nigéria, Burkina Faso, Mali, Moçambique e República Democrática do Congo, fatores como governos frágeis, pobreza, conflitos étnicos e disputa por territórios criam um ambiente propício para a atuação de grupos armados e organizações extremistas”, diz.

Ainda que seja um cenário perigoso para quem professa a fé cristã, o frei se surpreende positivamente com a vitalidade das comunidades em solo africano e nas demais regiões citadas. “Muitos cristãos continuam participando da Missa mesmo sabendo dos riscos que correm. Permanecem reconstruindo igrejas, formando seminaristas, educando seus filhos na fé e testemunhando o Evangelho com coragem. Basta olharmos para o fato de que a África é o continente onde mais crescem as vocações. Eles nos lembram que a esperança cristã não depende da ausência de sofrimento, mas da certeza de que Cristo venceu a morte”, pondera.

Porta-vozes sem retaliações

É difícil pensar em ações que fiéis e governantes possam tomar para coibir atos de violência e discriminação sem temer novas retaliações. Antes de mais nada, o primeiro passo é que as sociedades em todo o mundo entendam que a liberdade religiosa não é um privilégio, mas um direito fundamental.

“Os governos têm a responsabilidade de garantir proteção às minorias religiosas, combater a impunidade e impedir que grupos extremistas atuem livremente”, adverte o frei. “A nossa missão, ou seja, a missão da Igreja, é permanecer ao lado daqueles que sofrem. Isso acontece por meio da assistência pastoral, da ajuda humanitária, da reconstrução de igrejas e escolas, do apoio aos seminaristas e sacerdotes, da formação das comunidades e da sensibilização da opinião pública internacional. É exatamente essa missão que a ACN realiza diariamente em mais de 140 países há mais de 70 anos”, reitera.

E para aqueles que vivem em regiões em que a liberdade religiosa é respeitada, é possível fazer muito mais do que se imagina. “O primeiro passo é rezar. Quando conversamos com cristãos perseguidos, percebemos que esse é, quase sempre, o primeiro pedido que eles fazem: ‘Não deixem de rezar por nós’. A oração nunca é um gesto passivo. Ela fortalece a comunhão da Igreja e sustenta irmãos que vivem situações extremas”, recomenda o frei.

Foi especificamente para responder a esses anseios que nasceu o Dia de Oração pelos Cristãos Perseguidos. “Também é importante apoiar projetos de ajuda concreta e incentivar que a liberdade religiosa esteja presente nas agendas diplomáticas e internacionais. Recentemente, a ACN lançou uma petição global para defender a liberdade religiosa. Essa petição será entregue ao secretário-geral da ONU e a diversas outras autoridades”, acrescenta o frei.

A assinatura dessa petição pode ser registrada aqui.

Perseguição aberta e discriminação institucional

O relatório da ACN divide as violações entre perseguição aberta e discriminação institucional. Esta última pode ser considerada uma perseguição “silenciosa”, mas que afeta a vida do cristão no seu dia a dia.

“Quando pensamos em perseguição religiosa, é comum imaginar ataques terroristas, igrejas incendiadas ou fiéis assassinados. Mas existe uma forma de violência muito menos visível e igualmente devastadora: aquela que vai restringindo, pouco a pouco, o direito de viver a própria fé”, lamenta o frei.

As dificuldades cotidianas podem ser muitas: cristãos encontram barreiras para conseguir emprego, são impedidos de ocupar cargos públicos, enfrentam discriminação nas escolas, têm seus templos sujeitos a restrições administrativas ou encontram obstáculos para obter justiça quando são vítimas de violência. “Recentemente, recebemos um testemunho da Tanzânia no qual relatam ser comum ouvir em uma entrevista de emprego: ‘Qual é o seu nome?’. A pessoa respondia: ‘João’. Em seguida, o entrevistador finalizava: ‘Aqui não temos emprego para cristãos’.”

Esse tipo de perseguição mina a vida das pessoas aos poucos. Essas situações recebem menos atenção porque não produzem imagens tão impactantes quanto um atentado ou uma igreja destruída, mas seus efeitos são devastadores ao longo do tempo. “Por isso, o Relatório de Liberdade Religiosa da ACN é tão importante: ele amplia o olhar para mostrar que a violação desse direito fundamental também ocorre quando uma pessoa é privada de viver plenamente sua fé em sua vida cotidiana”, observa o Frei Rogério.

Deslocamento forçado

Em regiões como a África Subsaariana e o Oriente Médio, a violência e a discriminação têm provocado o deslocamento forçado de milhares de pessoas. O questionamento que fica é: há um risco real de desaparecimento completo dessas comunidades cristãs históricas? “Se olharmos apenas os fatos, infelizmente, esse risco é real em algumas regiões”, pontua o frade. 

O desaparecimento de uma comunidade cristã envolve muito mais do que o sumiço de um povo religioso. “Perde-se uma parte da memória histórica, do patrimônio cultural, da diversidade social e da capacidade de diálogo entre diferentes tradições religiosas. Em muitos lugares, escolas, hospitais e obras sociais mantidas pela Igreja atendem toda a população, independentemente da religião. O enfraquecimento dessas comunidades empobrece toda a sociedade.”

E para reforçar a existência não só cristã, mas de todos aqueles que creem em Deus, as preces neste Dia de Oração pelos Cristãos Perseguidos são fundamentais. “Por isso, concluo partilhando aqui o testemunho da pequena Okorie Faith, uma menina que na época tinha nove anos e sobreviveu a um atentado a uma igreja na Nigéria. Ela dizia que tinha o sonho de se tornar freira e perguntava se estar viva para realizar esse sonho era pedir demais. Ela disse uma frase que me marcou: ‘Não tenho certeza se poderei continuar indo à igreja por enquanto, porque foi quando fui à igreja para adorar a Deus que levei um tiro’. Ela agradecia a Deus por ter poupado sua vida e finalizava: ‘Nos mantenha sempre em suas orações’.”

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FONTE: https://noticias.cancaonova.com/igreja/violacao-da-liberdade-religiosa-afeta-dois-tercos-do-mundo/


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