Vocações adultas: às vezes, sente-se o chamado mais tarde, afirma padre
- 24/08/2026
Entenda o que são as vocações adultas e como pessoas mais velhas podem ainda corresponder ao chamado que Deus faz em suas vidas
Gabriel Fontana
Da Redação

Foto: Canva
O Mês das Vocações está chegando ao fim, mas as vocações em si não têm “data de validade”. O Senhor continua a chamar seus filhos, a seu tempo, para colaborar com a construção do Reino de Deus conforme os seus desígnios.
Essas são as vocações adultas (também chamadas de vocações tardias): pessoas que se sentem chamadas ao sacerdócio, ao matrimônio e a outros estados de vida ou modos de compromisso com Deus quando já estão mais maduras, em uma idade que, às vezes, é considerada “avançada” para iniciar um novo caminho vocacional.
Vocações adultas
Criado em 2019, o Instituto Discípulos de Emaús (IDE) é uma instituição da Arquidiocese de Curitiba (PR) voltada para a formação de vocações adultas à Ordem, tanto ao diaconato permanente quanto ao presbiterado.

Padre Roberto Nentwig, reitor do IDE / Foto: Reprodução Redes Sociais
O reitor do IDE, padre Roberto Nentwig, explica que são recebidos homens com idade entre 28 e 48 anos, mas há uma certa flexibilidade para acolher outros vocacionados. Tudo isso parte da concepção de que a vocação depende também de Deus, que se relaciona com a pessoa e a história dela.
“Dentro dessa história, às vezes a gente descobre certas coisas mais tardiamente, é verdade, ou já vem em um processo de descoberta, mas não teve a coragem de dar o passo ou não teve possibilidades na vida. Existem várias histórias”, frisa o sacerdote.
Apesar de a vida continuar, o vocacionado pode seguir sendo incomodado pelo chamado de Deus que ainda não atendeu. A partir das dúvidas que surgem durante esse processo, é preciso deixar-se iluminar pelo Espírito Santo e ajudar pela Igreja — e é aí que entra o IDE.
Processo formativo
Padre Roberto sinaliza que, em geral, os seminários não aceitam vocações adultas. Além disso, o processo formativo, que pode levar até uma década, pode pesar mais para alguém que já passou dos 40 anos, por exemplo, fora a diferença de idade com os outros candidatos ao sacerdócio.
Diante disso, a proposta do IDE é formar as vocações adultas em um processo de seis anos dentro do instituto (cinco de formação e um de missão). O sacerdote explica que isso não dispensa a necessidade da formação em Filosofia e Teologia, que são cursadas ao longo desse período (embora a maior parte dos vocacionados já seja graduado em pelo menos uma dessas áreas).
Como critérios para acolher um vocacionado, o IDE exige que o candidato tenha autonomia, sendo capaz de se sustentar, e vida eclesial, participando ativamente da comunidade em que está inserido. “Tem que ser uma pessoa inteira, ajustada, que não tem nenhum tipo de fuga, que tem autonomia na vida, que tem uma participação de vida eclesial e que fez o discernimento à luz de Deus”, salienta padre Roberto.
O IDE acolhe vocações de todo o país, mas atende especialmente a Arquidiocese de Curitiba e as Dioceses de Umuarama (PR) e São José dos Pinhais (SP). Os vocacionados dessas circunscrições recebem a formação e depois retornam às suas dioceses de origem para serem ordenados, enquanto outros podem ser integrados ao clero curitibano. Até aqui, três sacerdotes receberam a ordenação, e um quarto receberá a Ordem ainda este ano.
Diácono viúvo pode ser ordenado padre?
Outro caso possível (e ainda mais extraordinário) é a ordenação de diáconos permanentes casados e que ficaram viúvos. Após a partida de sua esposa, um diácono não pode se casar novamente, mas pode, caso sinta-se chamado por Deus, receber o grau presbiteral do sacramento da Ordem.
É o caso do padre Ubirajara Gonçalves, conhecido como padre Bira, da Diocese de Mogi das Cruzes (SP). Ele conta que, quando jovem, estudou por dois anos no Seminário Redentorista Santo Afonso em Aparecida (SP). Contudo, precisou interromper sua formação para cuidar de um irmão com câncer que posteriormente faleceu.
Ubirajara tornou-se catequista de adultos em sua paróquia, em Poá (SP), onde acabou conhecendo sua futura esposa, Maria Aparecida de Oliveira Gonçalves. Os dois se casaram em dezembro de 1994. Na década seguinte, por sugestão de Maria Aparecida, candidatou-se para o diaconato permanente, foi aceito pela diocese, cursou Teologia e foi ordenado em fevereiro de 2013.
No ano seguinte, Maria Aparecida faleceu. Ubirajara decidiu pedir a ordenação presbiteral, recebendo-a em fevereiro de 2016, aos 53 anos. O sacerdote recorda, contudo, que ele é uma exceção: não é regra ordenar homens viúvos.
Hoje, uma década após receber a ordenação presbiteral, padre Bira testemunha sua felicidade em servir a Deus na Igreja. “Sou respeitado e acolhido, na paróquia, no presbitério e pelo povo de Deus”, conclui.

Padre Ubirajara Gonçalves no dia de sua ordenação sacerdotal, em fevereiro de 2016 / Foto: Francisco Isaias Ferreira/Diocese de Mogi das Cruzes
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